A vida nos prega preças e reserva surpresas, sobre isso já escrevi tantas vezes. Mas sabe quando a surpresa é tanta - e tão assustadora e ao mesmo tempo gostosa - que te deixa rindo sozinho por um tempo? Pois é. Imagine, então, o que é reencontrar o primeiro melhor amigo, anos depois, e saber que ele não se esqueceu de você em duas décadas!
Os primeiros nove anos da minha vida eu passei em Laranjeiras, no município da Serra. Estudava na Escola Pequeno Príncipe. Lembro com clareza dos muros altos, chapiscados, da quadra de cimento grosso, da árvore que havia em frente à janela da minha sala de aula.
Fui alfabetizado pela "tia Ana", uma tia magrinha e risonha. Lembro-me da voz anasalada dela, contando-nos das aventuras da "Turma da Abelhinha" - o método de alfabetização vigente naquele início dos anos 90. Está na minha recordação a imagem do varal de roupas, em cima do quadro negro, com as gravuras de Abelhinha, Escovinha, Índio, Óculos, , Ursinho, Vagalume, Dália, Lobo, Minhoca,Pipa, Gato, Rato, Torre, Bule, Caracol, e tantos outros personagens que, a cada semana, chegavam para me ensinar a ler e a escrever.
Na minha sala havia muitos colegas, e apesar da pouca idade, desde aquela época eu decorava nomes e sobrenomes. Havia a Juliana Neri, a Larissa Lyrio, a Monia Chieppe, O Raphael Schneider, o Rafael Batista... e o Hugo. O Hugo era meu melhor amigo. Daqueles que lanchava junto, que brincava no recreio, que dividia segredos. Hugo foi o único amigo que levei à minha casa para brincar num fim de semana - quando criança, eu vivia doente e, por isso, não era dado às brincadeiras na rua.
São claras a imagens que tenho das vezes em que eu e meu amigo lanchávamos, sentados no primeiro degrau da escada da escola. Éramos os mais altos da turma (sim, eu já fui alto!) e, por isso, os últimos da fila na hora do recreio. Com o Hugo eu fazia planos impossíveis, ria de bobeiras - a ponto de dar aquelas gargalhadas gostosas, da cabeça virar para trás e a barriga doer.
Eu queria ser como o Hugo. Ele era baixinho, gordinho e tinha um cabelo caído na testa. Eu, magro com cabelo sempre penteado de lado. Eu achava que ser cheinho era vantagem (aí veio Deus, me fez tomar corticoide por anos e até hoje luto com a balança! Depois dizem que desejos de crianças não são ouvidos tsc tsc tsc).
Quando Hugo foi na minha casa - o sobrado rosa que já descrevi aqui certa vez -, eu tive vergonha porque parte da fachada não tinha reboco e porque o muro era feio. Eu queria ter uma casa bonita para apresentar ao meu amigo. Passamos uma tarde brincando no quintal e, de sobremesa, Vovó Santa, sempre presente, nos serviu chantilly com raspas de limão. A gente não gostou rsrsrs
Mas, onde você quer chegar com tanto trololó, Eduardo? Bem, o Hugo reapareceu. De bobeira no Facebook, ontem resolvi jogar os nomes e sobrenomes dos coleguinhas da alfabetização. Achei a Larissa Lyrio, a Monia Chieppe... e o Hugo. Caramba! A infância voltou como um filme à minha cabeça - e eu acho que ele não mudou na-di-nha nesses quase 20 anos. A última vez que eu o havia visto foi em 1994, quando fui expulso da Escola Pequeno Príncipe por mal comportamento.
Hugo respondeu minha mensagem no Facebook. Caramba, é ele mesmo! Começamos a teclar e, gente, meu antigo-melhor-amigo lembra de mim. Não só se lembra, como guarda até hoje a agenda que tinha na época, onde está o endereço da minha casa de Laranjeiras. O Hugo se lembrou da tarde que passamos brincando na minha casa. Em vez da fachada malfeita, se recordou de ter tomado suco de melancia pela primeira vez na vida (eu não me lembrava disso!).
Meu antigo-melhor-amigo se lembrou que eu comia comida sem sal - caramba, às vezes até eu me esqueço desse capítulo da minha infância! - e de tantas brincadeiras daquela época boa. Disse que, já na primeira série, meus textos eram bons. Pausa para meu deboche costumeiro: desde quando "Eva viu a uva" e "A abelhinha olhou a escovinha" podem ser considerados textos? E bons? Ah, Hugo...
Ri sozinho. Me lembrei de momentos bons, de histórias que o tempo havia apagado da minha lembrança. E, mesmo que hoje Hugo não seja o meu melhor amigo, que a vida tenha me apresentado tantas outras pessoas nos últimos 19 anos, e que nada mais em comum haja entre nós, valeu a pena voltar a ser criança de novo. Uma lembrança com sabor de chantilly, raspas de limão, e frio na barriga com medo da "malvada" tia Bernadeth, a diretora da escola que interrompeu nossa amizade. É... 1994 foi "logo ali"...
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
sábado, 8 de dezembro de 2012
O que se entende da vida?
Nossa vida é feita de pessoas
Algumas que chegam
Algumas que partem
Outras que simplesmente passam
E aquelas que ficam eternamente, advindas no nada
Nossa vida é feita de momentos
Bons, inesquecíveis, com cheirinho de chuva e sabor de chocolate
Ruins, inesquecíveis, que deixam aquele soluço de choro e um frio no coração
Momentos sem eira nem beira, que simplesmente acontecem
Momentos que esperamos por toda uma vida, mas que só acontecem milésimos antes de um último suspiro
Nossa vida é feita de recordações
Aquelas que misturam a saudade e a alegria de uma nova carta
Aquelas que nos trazem o perfume da pessoa amada via simples pensamento
Recordações que nos acompanham para onde quer que fujamos
Recordações obsoletas, do machucado no pé aos cinco anos, ou do brinquedo quebrado pelo irmão mais velho
Nossa vida é cheia de surpresas
Como a do aniversário passado, organizado pelos melhores amigos
Uma telemensagem ao vivo, desconsertante e adoravelmente vergonhosa
O primeiro beijo roubado
O primeiro batimento cardíaco acelerado, anunciando um grande e novo amor
O amor por si só, com suas fantasias e sua inesgotável força
A vida... a vida... inexplicável como ela só
Que nos faz sorrir e chorar
Lembrar e esquecer
Andar, cantar, correr
A vida só nos aponta uma alternativa:
VIVER
* Texto escrito em abril de 2004, quando o autor deste blog tinha apenas 18 anos e achava que sabia alguma coisa a respeito da vida. O título original desta breve divagação é "A Vida" (muito profundo, não?!)
domingo, 18 de novembro de 2012
Pegue leve e leve a vida
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| E o "Fachemóvel" acabou guinchado |
Um farol do carro quebrado, muitas contas vencendo, uma reforma pela metade, pouco tempo para cuidar da saúde e, de quebra, uma pane elétrica que te obriga a chamar o guincho para tirar o carro do lugar. Receita infalível para uma crise de estresse, um piti básico, queixas a não finir sobre a (má) sorte da vida, certo?! Errado.
Nos últimos meses, como pode-se notar pelo abandono deste blog, tem faltado tempo até para coisas básicas. Encarei uma eleição municipal, o corre-corre da política, algumas pendências em casa (saúde da vovó inspirando cuidados) e a reforma do novo apartamento seguindo, paralelo à falta de tempo. Ah, e nesse meio tempo ganhei um carro e, olhe só, ele resolveu dar problema justamente agora, quando as finanças estão à míngua e a reforma entra na fase de acabamento - a mais cara.
Mas, em vez de reclamar disso tudo, resolvi respirar fundo. E, olhem, acho que estou me saindo bem. Fora uma dor de cabeça aqui, uma azia acolá, meu humor até que tem oscilado menos. Neste último episódio, aliás, até estranhei: enquanto o carro insistia em não dar partida, acabei fazendo amizade com o futuro vizinho, conheci a esposa dele e ouvi uma bonita história de vida.
Gilian veio de Minas Gerais para o Espírito Santo há alguns anos. Já morou em Vitória, em Cariacica, em bairros que nunca ouvi falar. Ele e a mulher, Thaís, têm uma filha de cinco anos, Anny, e agora moram na Praia da Baleia (Serra), para onde pretendo me mudar em breve. Sempre viveram de aluguel. Não têm muitos anos de escolaridade e, pelo que me contou o rapaz, levam uma vida não tão próspera.
"Se a gente não ganha nada dos pais e nem tem estudo para ganhar um bom salário, tem que lutar na vida para ter o que é nosso", recomendou-me o vizinho, enquanto tentávamos consertar meu carro. Em vão. O guincho teve que ser acionado e eis que, para minha surpresa, Gilian foi até em casa, trocou de roupa, e se dispôs a trazer a mim e a vovó Santa até nossa casa, em Jardim Camburi (são cerca de 15km de distância). Sim, ainda há pessoas boas e prestativas no mundo! No caminho, viemos conversando sobre o novo bairro, a vizinhança e planos para o futuro. Ele e a esposa ainda têm que terminar a reforma do apartamento deles, mas estão felizes por terem saído do aluguel.
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| Vida de pedreiro no feriadão, é mole? |
Pois é... a vida prega peças. Num cenário de caos, acabei conhecendo uma pessoa do bem. Um cara que, vá lá, deve ter uns dois anos a mais que eu - se tiver! - e que está batalhando muito para deixar um chão para sua pequena filha. Posso eu reclamar da minha vida, tendo um exemplo como esse? Acho que não. Não me faltou estudo, trabalho com o que gosto, estou prestes a ter minha casa própria. O carro, com problema ou sem, eu ganhei - e Deus sabe como tem sido útil nesses tempos de carregar cimento, azulejos, argamassa e rejunte de cima pra baixo.
A vida tem me ensinado muito neste ano. Acho que não foi por acaso - ou talvez tenha sido uma profecia inconsciente - que no último 1º de janeiro eu tenha posto no meu status do MSN: "Que 2012 seja de construção". Estou construindo meu apartamento, minha carreira e, pelo visto, um novo eu. Às vezes é preciso respirar fundo, sorrir e seguir adiante para não perder o fôlego diante de tantas empreitadas. Quem disse que erguer o futuro é tarefa fácil?!
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