domingo, 12 de junho de 2016

Torto, torto, reto, reto

Minhas escolhas nunca foram retilíneas. Fato. E é preciso deixar isso logo claro, desde a primeira linha, para que ninguém depois venha dizer que não foi avisado do carrossel em que estava se metendo. Antes do ponto final, passo e "despasso" por curvas, buracos, rotatórias e todo tipo de viela que há. Algumas sinuosas surgem do meu próprio pensamento. Mas dificilmente opto pelo caminho mais curto. 

Nas muitas vezes em que ponho a cabeça no travesseiro para pensar sobre o dia vivido, se fazem presentes as divisões que trago em mim antes de respostas fundamentais. Entre o A e o C, olho para o B com certa dó: por que não isso? Entre A e B, o abandono do C, por vezes, me consome. Quem vê de fora não imagina nada disso.

Se a vida fosse um sistema binário, só com uma mão de ida e outra de volta, talvez as situações fossem menos complexas. Talvez eu parasse no meio do caminho para olhar o que há do outro lado da avenida. De um modo muito próprio, tenho percebido que nada é só o que parece ser. Não há quem seja puramente ruim, nem quem mereça ser considerado totalmente bom. Essas pequenas frações de sujeitos, com todos os seus verbos e predicados, tornam tudo mais interessante (e perturbador).

Como desgostar, de um dia para o outro, de quem até outro dia era seu ombro mais buscado para o aconchego? Como, de repente, desligar o botão das emoções e ver como invisível (?!) alguém que há tão poucos dias era seu ar? Em outro capítulo desse livro, também não encontro respostas para o súbito desejo de zerar o jogo, de retomar histórias que foram deixadas de lado, com páginas jamais folheadas. Livros velhos são mesmo capazes de guardar histórias novas, é a minha aposta.

Em busca de respostas que entrevistado nenhum me dará, continuo meus passos em falso, seguindo coordenadas que os impulsos ditam. Torto, torto, reto, reto... onde vai dar isso? Não sei. Mas no caminho vou observando as flores, as dores, os gestos, e como eu mesmo vou me adaptando a esse vendaval.


domingo, 23 de agosto de 2015

"O Pequeno Príncipe", um filme para adultos

Antes de mais nada, uma advertência: talvez eu vá escrever demais.

Quando eu tinha oito anos, nove, talvez, minha mãe trabalhava em um consultório médico e, num belo dia, presenteou-me com um exemplar de "O Pequeno Príncipe". Não era um livro novo; a capa já estava amassada, as páginas tinham "orelhas". Um paciente o havia esquecido na sala de espera e mamãe, sorrateira que só, o levou para casa.

Li, gostei da história, me encantei com a amizade entre o príncipe e a raposa, mas nada tão avassalador. Anos mais tarde, uma professora me pediu que emprestasse a ela o bendito livro. E lá foi ele - para nunca mais voltar às minhas mãos. Um dia queixei-me disso com a mamãe, afinal, eu havia criado um carinho especial por aquele presente que ela tinha me dado. Eis a resposta dela à minha reclamação: "Esse é o destino do Pequeno Príncipe. Ele não pode ficar nas mãos de um só. Ele é livre". Nunca me esqueci.

O tempo passou, a vida seguiu, e em meados de 2011 "O pequeno Príncipe" voltou à minha cabeceira. Desta vez, dado por minha tia Márcia, de São Luís. Ela havia procurado uma edição especial, rara, mas não encontrou. Então enviou-me um livro novinho, com uma dedicatória que, entre outras coisas, desejava que eu jamais perdesse a pureza da infância (e nessa época eu já tinha uns 26 anos...).

Vira a página. Agora está em cartaz nos cinemas uma versão da história de Antoine de Saint-Exupery. É uma animação que mescla desenho "tipo antigo" (desculpem-me, os críticos, não sei os termos certos!) e computação. E em vez de nos apresentar, de cara, o príncipe viajante que deixou seu asteroide para afastar-se de uma rosa egocêntrica, o filme nos brinda com uma garotinha criada por uma mãe extremamente rígida, que impõe a ela "um plano de vida" que inclui horários para tudo - tempo para um "novo amigo" só no próximo verão, e se tudo de essencial for cumprido antes.

Confesso: saí do cinema emudecido. Não porque vi, enfim, o príncipe de cabelos dourados saído das páginas que já li tantas vezes, mas porque todas as metáforas e mensagens do livro foram preservadas e - até ouso dizer - melhoradas. Ali na telona está claro o quanto a gente perde de brilho, de sonhos, por crescer. Por se enfiar em escritórios, como "um grande homem de negócios" e não ver mais as estrelas.

E o que dizer dessa geração de crianças que aí está, tão cobrada por resultados, conquistas, sucesso? Não, gente... não é só coisa de cinema! Minhas sobrinhas mesmo, que têm entre 6 e 11 anos, já vivem essa doideira que é dar conta de mil-coisas-ao-mesmo-tempo. Acho que nunca as vi brincando de pique-esconde, ou de fazer cabaninha no quintal. No filme, a protagonista só descobre o que são esses pequenos prazeres ao se tornar vizinha de um velhinho - que vem a ser o aviador que caiu no deserto do Saara e que narra a história do Pequeno Príncipe.

Nos dias de hoje ser pequeno parece uma ofensa à "adultização" que é tão cobrada. E aí a gente esbarra com um monte de gente que tem metas de vida, planos audaciosos, mas que nunca enxergou as rosas e as raposas que estão ao lado. É triste constatar que ser "inteiramente igual a cem mil outros garotos" está se tornando regra, e ninguém parece preocupado em cativar ninguém. 

"Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro", ensina a raposa. E quantos de nós não têm medo de necessitar de outrem, já que temos tantos afazeres, tantas metas a bater, tantos boletos a pagar? Gostar, afeiçoar-se, importar-se tem se tornado artigo secundário, e cada vez mais as pessoas se assemelham aos monarcas e aos vaidosos com os quais o principezinho se deparou em sua viagem intergalática.

Não sou nenhum crítico de cinema (longe disso!), mas acho que o grande trunfo da adaptação do livro para as telonas é essa "chacoalhada" à qual o espectador é submetido, ao ser lembrado de que crescer é inevitável, mas esquecer-se das coisas simples da vida esconde um grande risco à felicidade. Definitivamente, "O Pequeno Príncipe" não é um filme infantil. É, sobretudo, para os adultos - e para as crianças que (ainda) existem dentro de cada um. 

Como bem ensinou a raposa ao Pequeno Príncipe, antes de se despedirem, e já tendo cativado um ao outro, "Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos". Talvez por isso - e só por isso - eu ainda consiga ouvir as gargalhadas gostosas de mamãe e de tia Márcia, que passaram a habitar algumas dessas estrelas do céu.

domingo, 28 de junho de 2015

Bora ser feliz?

O começo é como receita de bolo: tenho tantos anos, tal altura, gosto de tal coisa, ouço tais músicas, valorizo isso e desaprovo aquilo em alguém. Essa fórmula às vezes é acrescida de opiniões sobre o mundo e de lembranças que deram (e que não deram) certo, mas para que a conversa continue, para que haja o desejo de um "boa noite" seguido de um "bom dia", ou vice-versa, é preciso frio na barriga. E é isso que está fora do controle!

Ah, meu caro leitor, talvez seja muito difícil determinar o que faz com que as borboletas revoem no estômago e o coração acelere. Pode ser a afinidade nas músicas, o propósito de futuro, um sorriso bonito ou, simplesmente, aquela risada roubada e boba que surge sem um porque exato. E quando isso acontece é infalível: você já está pensando no depois, e no depois, e no depois.

Autobiografia à parte, não costumo acreditar em relações onde não haja uma mínima fagulha de expectativa. De pé no chão já bastam as contas que caem todo mês no banco e os afazeres profissionais - sobre esses dois pontos, de fato, não cabem especulações ou fantasias. Penso que quando uma pessoa se dispõe a estar com outra, é preciso, sim, que haja sintonia, observação, o mínimo de curiosidade para descobrir a outra parte. 

Planos a dois não costumam ser fáceis, é verdade. Um quer dormir, outro quer sair; um prefere ficar em casa, o outro tem um mundo a descobrir; um está carente, esperando por abraços, o outro acha que bom mesmo é estar com os amigos para espantar a melancolia. Quem nunca viveu uma dessas situações, não é?! E, diante dessas diferenças, quem nunca pensou em jogar tudo pra cima, fechar a porta sem olhar para trás e recuperar a paz que só se tem estando consigo próprio?

Um pouquinho de divergência faz bem, e isso talvez eu tenha aprendido com o tempo. Mas quando é demais, ou quando não se nota o mínimo esforço para atenuá-las, abrem-se abismos difíceis de serem saltados. Aí bate o medo: estou no caminho certo? Ou, melhor: é isso mesmo que eu quero? Ter paz individualmente, conjugando os verbos sempre na primeira pessoa do singular, é uma via segura, sem sombra de dúvida. Esse caminho onde só existe o "eu" é menos cheio de curvas, de altos e baixos, porque você anda, corre e pára sem precisar consultar ninguém. 

Mas ainda sou daqueles que acreditam em subidas e descidas com companhia do lado, com passos largos e curtos, com corridinhas e períodos de descanso que se tornam prazerosos se você tem alguém pra te incentivar.

Você pode até não lembrar qual foi a palavra que te despertou a vontade de ter uma companhia, nem mesmo qual das perguntas daquela receita de bolo lá de cima te fez sorrir e querer continuar o papo. Mas de uma coisa eu estou certo: se há na sua vida algum encantamento, algo que possa tornar os fardos menos pesados, agarre-o. Assim a caminhada será mais agradável.