domingo, 3 de junho de 2012

Breve constatação

Uma noite de sábado à noite pode ser inspiradora. Para os frequentadores da praia e adeptos das ondas dominicais, é bem-vindo o sono reparador, para o dia raiar cedo. Para os amantes à solta nas ruas,  é hora de buscar prazeres, sensações, novidade. Insones, como eu, usam esse tempo para pensar. Pode ser em tudo: no trabalho, nas contas a pagar, na vida, nas histórias vividas e nas frustradas. Surge uma frase:


E agora sim, boa noite. Durma com um barulho (ou um silêncio) desses.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Manias, manias

Tenho manias que são muito minhas. Como qualquer pessoa, reconheço em mim traços, virtudes e defeitos particulares, alguns até inconfessáveis. Alguns me irritam, outros nem tanto. Há dias em que sinto raiva de mim por ser do meu jeito, há dias em que rio de mim e me aceito do jeito que sou (o que me faço ser?).

Tenho mania de franzir a testa em frente ao espelho, pra ver onde a proximidade dos 30 anos já se anuncia. Marcas de expressão presentes, linhas que rasgam a testa. Ok, ok, não são tão evidentes e o "balzaquianismo" (existe isso?) ainda vai demorar três anos a chegar, mas essa mania está em mim. Ah, também gosto de ver até onde consigo arquear a sobrancelha - algo, aliás, que sem notar faço toda vez que algo me desagrada ou me desperta deboche.

Crio frases que me caracterizam por certo tempo. Foi assim em 2002, quando ao pular uma cadeira do auditório do CEFETES e ser advertido pelo professor, exclamei: "- Cruzes!!". Pronto, por um bom tempo, quando os outros alunos me viam nos corredores, repetiam a expressão. Em 2006, eu dizia sempre "- Ai que triste" diante de alguma notícia ou frase pesarosa, e até hoje minha tia Norminha assim se lembra de mim.

Ultimamente tenho repetido à exaustão a frase "- Palavras têm vida", quando me manifesto sobre as profecias que fazemos no dia a dia. É um alerta para ver se eu mesmo me atento de não dizer coisas negativas. Afinal, palavras têm vida e, Deus me livre, não quero nada de ruim por perto!

Tenho mania de passar xampu duas vezes durante o banho, de ler a última página de um livro antes de começar a leitura, de organizar as camisas por cor no guarda-roupas, de entrar com o pé direito em um ambiente desconhecido, de ficar navegando na internet toda vez que estou no ponto ou dentro de um ônibus (para evitar que alguém puxe papo).
 
Não suporto tela de celular suja. Se ao encostar o aparelho na bochecha para falar ele mancha, perco alguns segundos esfregando qualquer pedaço de pano para ver o display novamente nítido. Meu celular tem uma "portinha" para conexão USB que fecha e abre para encaixar o cabo, e vez ou outra, me pego num "abre-fecha-abre-fecha" instintivo, só para ouvir aquele barulhinho do encaixe da peça.

Um costume irritante é dizer "- Uhum" quando concordo com algo e "- Agradeço muitíssimo" quando encerro uma entrevista. Às vezes nem estou agradecendo coisa alguma, é verdade. Tenho mania de repensar cenas vividas e projetar finais diferentes para diálogos. De imaginar situações factíveis com início, meio e fim, a ponto de acreditar tanto nas minhas versões que, quando se tornam reais, prefiro o que criei.

Tenho a estranha mania - um vício, até - de percorrer com os olhos todos os cantos do rosto de uma pessoa enquanto estou conversando. Cultuo a mania de acreditar no ser humano, mas tendo no bolso meus "poréns" e defesas para uma rota de fuga. Mania besta, essa, de estar sempre em busca do que não consegui.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Vida de novela

Seria mais fácil se a vida fosse como nas novelas: acordar penteado, com hálito fresco, ter a casa sempre arrumada, as toalhas de banho sempre bem dispostas, sair e entrar do serviço a hora que bem se entende e, nas adversidades, adiantar dias e meses de uma cena para a outra.

Viver seria mais simples se pudéssemos escolher os vilões e mocinhos com quem lidamos. Se tivéssemos a certeza da derradeira cena do acerto de contas. Seria bom poder quebrar a casa toda num acesso de fúria, com a certeza de que, passados 30 segundos, a casa estaria limpa e organizada novamente. 

Os casamentos seriam mais felizes se, como nas tramas, as pessoas reconhecessem suas almas gêmeas só por olhar. Se os casais se cruzassem nas ruas e o vento soprasse diferente para levar um ao outro amado; se as crianças viessem lindas e bochechudas - sem cocô na fralda, sem choro de madrugada, sem golfada no ombro. 

As cerimônias de enlace seriam perfeitas se, como nas fábulas televisivas, não envolvessem contas a pagar depois, muito estresse, salão de beleza lotado, frio na barriga, briga de familiares por saber quem será ou não padrinho. Desta forma, o Brasil seria recordista mundial de uniões e as igrejas não teriam datas livres até, sei lá, 2014. E os padres, claro, suariam menos se só precisassem dizer "- Se alguém tem alguma coisa contra esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre" sob as pesadas vestimentas litúrgicas.

Seria mais fácil se a vida pudesse ser adiantada em capítulos. Se a sinopse pudesse ser conhecida e decorada. Se nossas reações às chamadas pudessem ser ensaiadas à exaustão, até a cena ficar perfeita. Os dias seriam menos angustiantes se houvesse a certeza de que no dia seguinte as pendências se resolveriam. Se os mocinhos, mesmo distantes, tivessem a clareza de que encontrariam as mocinhas; se os antagonistas tivessem punição garantida ao fim da trama.

A vida seria deliciosa se toda casa tivesse piscina sempre limpa, se as festas fossem cheias de gente bonita, se o espumante estivesse sempre gelado na medida certa. A alegria da vida seria contagiosa e definitiva se como nas novelas as doenças mais diversas tivessem cura sem tratamentos longos e penosos e se cada um de nós tivesse uma trilha sonora própria para embalar os momentos especiais.

Seria bom conhecer os planos que Deus, o autor oculto e silencioso, tem para seus personagens. E se assim não pode ser - já que estamos fadados a desencontros, a amores não correspondidos, a cabelos desalinhados, a contas a pagar no fim do mês e à eterna incerteza do amanhã - só nos resta, vilões e mocinhos, coadjuvantes e protagonistas, esperar pelas cenas dos próximos capítulos.