quinta-feira, 2 de junho de 2011

Espírito de Guerra

O dia prometia ser mais um, de tantos outros, com notícias amenas e pouco trabalho. Previstas, estavam as mudanças no trânsito da cidade vizinha e um registro de mais um protesto de estudantes em frente à sede do governo. Igual a tantos outros, com muitos alunos, palavras de ordem, e nenhum resultado. Nada demais.

Bem queria que a promessa se cumprisse, mas não foi o que se deu. Durante mais de sete horas, ouvi palavras de ordem. Respirei fumaça preta, advinda da queima de pneus. Narrei um confronto (inenarrável) entre policiais munidos de escudos, cacetetes e gases de dispersão - e estudantes, que a seu lado tinham bandeiras, faixas, pedras e paus.

A cidade virou uma verdadeira praça de guerra, e fui testemunha disso. Mas não só testemunhei: descrevi o que via para uma infinidade de outras pessoas. Busca desenfreada pela informação mais isenta, imparcial. Apesar da adrenalina, nessas horas a emoção tem que ser separada da razão. Vi gente caindo no asfalto, corri para ter o ângulo da melhor foto. Lamentei (profundamente) pelas pessoas que ficaram presas no trânsito, que perderam consultas e oportunidades de emprego. Fiquei angustiado quando vi a tropa de choque da Polícia Militar caminhar, em passos certeiros, em direção a tantos adolescentes.

Ah... os adolescentes! Será que têm noção do que fazem? Me pergunto se de rostos cobertos e sujos de tinta são algum motivo de orgulho para os pais. Vou além, com a licença que vocês, leitores, me dão: fazer jingles, paródias, brincar de equilibrismo, de pular mochilas e comer marmita no meio do asfalto - fatos que presenciei neste 02 de junho - mudam a realidade de uma cidade? Duvido muito. Acrescento, por minha conta em risco, que certas atitudes acabam desmerecendo algo que deveria ser levado a sério e encarado com reverência.

E os policiais? Também fico com uma pulga atrás da orelha quando vejo agentes agitando cães farejadores contra a população que assiste, embasbacada, o entorno da sede do governo se transformar em trincheira. Me assusta presenciar um homem fardado mirando um tubo de spray de pimenta no rosto de populares. Não foi um jato aleatório. Havia objetivo certo! Passado o calor da hora, surgem as já cansadas e desgastadas palavras de repúdio: truculência, exagero, desmando. Mais do mesmo.

Vi Vitória se transformar em cenário de luta. De (fracas) ideologias pueris contra (fortes) braços, com cacetetes e escudos. As janelas do Palácio foram atingidas. Por quem? Não posso afirmar; fui barrado "por motivo de segurança" e não tive a permissão de cumprir meu papel. Mas sei que, de costas para a sede do governo, estavam os estudantes. Defronte, a tropa de choque, com suas balas de borracha ameaçadoras e impiedosas.

Não há ser humano - por bom que seja - que apóie quem lhe tira o direito de ir e vir. Que o obriga a ficar quatro, cinco, sete horas de pé num ônibus lotado. Não existe compaixão para com quem (não estou generalizando, sei que há pessoas sérias envolvidas), a despeito do bem comum, faz das avenidas da cidade um pátio de recreio, onde se brinca de lutinha, ao lado dos coleguinhas, achando graça em fazer a "dança do siri" quando vê uma câmera de televisão.

De igual modo, creio que não há ser humano - por crente que seja - que veja no enfrentamento policial algo "simples". Se era para conter a manifestação, porque ficaram por seis horas parados? Não havia sido registrado, até aquele momento, nenhum ato de violência. Nenhuma agressão. Bastou o enfrentamento para que os alvos passassem, de acusados de atrapalhar a fluidez da cidade a vítimas de um "governo impiedoso", como tacham algumas mentes mais afoitas e radicais.

Percebo que as instituições precisam se reinventar. Caso contrário, a linha tênue que separa manifestação de baderna, e segurança de violência, uma hora vai se romper. E, assim sendo, não vai adiantar trabalhar, confiar, nem nada mais. O espírito, que de santo nada tem, será condenado ao purgatório.

22 comentários:

  1. Perfeita análise Fachetti. Finalmente consigo entender realmente o que aconteceu hoje em Vitória. Imparcial e certeiro. Um abraço amigo.

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  2. Imparcial... e acéfalo.

    Achar defeitos em todos os lados por medo de ser parcial e evitar uma análise crítica é bom? Então você é um dos melhores!

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  3. Voce tem certeza que o que você faz é Jornalismo?

    LAMENTÁVEL! Omisso.

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  4. Eduardo,
    não se deixe levar por comentários de baderneiros.

    Seu post está excelente.

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  5. Vinícius (Pezão)3 de junho de 2011 09:14

    Desde quando jornalista precisa dar opinião?
    Jornalista precisa mostrar os fatos e cada um decida o que pensar.
    Parabéns Faquetti.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Se alguém conseguir me provar que consegue escrever uma matéria imparcial, objetiva e neutra, pode ter certeza que vou rasgar meu diploma no mesmo número de caracteres dessa mesma matéria.

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  8. Muito boas as críticas a ambos os lados. Todos os erros devem ser discutidos mesmo. É muito fácil apontar os policiais como os únicos responsáveis pelos atos de violência de ontem.
    Há uma constante busca dos movimentos sociais por mártires, tomar bala de borracha é uma espécie de orgulho. Isso não é bom.
    Porém, não acho que deve-se encarar o repúdio à violência policial como uma (fraca) ideologia pueril.
    De fato ninguém gosta de ficar esperando dentro do ônibus, no ponto ou dentro do carro, isso deve-se ao sentido de cidadania que é tão ralo em todo mundo.
    Só apoiamos causas que nos convém, só entendemos os preços do que cobramos, só há luta por causas pessoais.

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  9. a instituição que precisa - e está se reinventando, fora dos grandes veículos - com urgência é o jornalismo. já era hora desse discurso da imparcialidade ser visto como ridículo!

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  10. O segundo comentário resume tudo: (análise)míope, (texto)imparcial = (jornalista)acéfalo. Ou a ordem dos fatores não altera o produto.

    temos que divulgar este petardo do bom senso jornalístico capixaba!

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  11. Faltou esclarecer neste texto que os estudantes estão há seis meses tentando dialogar com o Governo do Estado sobre o preço da passagem, o passe livre e os problemas do transporte público. E foram absolutamente ignorados!

    Resumir os acontecimentos ao dia de ontem é PRIVAR a sociedade do verdadeiro debate, do verdadeiro problema: a precariedade do Transporte Público na Grande Vitória. É justo pagar uma passagem tão cara, conviver com a superlotação dos coletivos, a insegurança e a insuficiência da frota e ser obrigado a engolir o monopólio das empresas de ônibus?

    As consequências do dia de ontem estão em milhares de vídeos no youtube, em blogs, redes sociais, matérias de TV, sites e impressos. NUNCA IMPARCIAIS. Aliás, o grande debate no PRIMEIRO PERÍODO da Faculdade de Jornalismo é desmistificar a “neutralidade” e a “imparcialidade” do jornalismo.

    Mas e as causas? Quem noticiou a raiz do problema? Quem deu a devida atenção à problematização do Transporte Público na Grande Vitória? Por que uma Cidade que é uma ilha insiste em não utilizar o transporte aquaviário? Qual “grande” veículo contextualizou as informações? Por certo, “grande” mídia local não fez NADA disso.

    Faltou “analisar” também que o monopólio das empresas de transporte, com a conivência dos governos do Estado, há anos “param” a Grande Vitória e impedem, com a cobrança abusiva de passagem, o Direito de Ir e Vir de MILHARES de Cidadãos.

    Brunella França.

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  12. Boa analise sobre essa revolução ignorante, que só promove a violencia.

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  13. Engraçado q. no gazetaonline sua matéria teve um tom bem diferente não?!Enfim,mesmo sendo "parcial"aqui,já mostra o jornalismo q. vc faz.Vim ler por dica de uma amiga,perdi 5 min. valiosos.

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  14. Jornalismo = opinião. Não venha com esse papinho de imparcialidade. Diga logo que você é contra os protestos e argumente.

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  15. Sr. Jornalista, pra mim o maior erro de vocês da imprensa corporativa é querer dizer quem sao os outros sem escutá-los e cobrar que o outro seja como vocês querem. Ora, sao jovens e vocês querem que eles façam política super séria, coloquem terno e gravata pra reunir-se com o sr governador que nao quer falar com eles? Os jovens tem que fazer política diferente e inclusive também devem fazer jornalismo diferente do de vocês, imparcial...
    nao venha você dizer como eles devem protestar, o sr. é imparcial,esqueceu?

    A política nao é privilégio dos politicos profissionais, nem o jornalismo deve ser privilégio dos jornalistas profissionais

    Deixa o menino jogar!
    A consciencia do povo daqui, é o medo dos homens de lá...

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  16. Sai do muro Eduardo, o blog é seu e não da rede Gazeta. Você é a favor ou contra?

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  17. Estes comentários viu...Sabe oque me irrita MUITO?
    É que quem defende a tal "causa" não admite que alguém seja contra, mesmo que a pessoa tenha os argumentos certos, ou que demonstre que houveram excessos dos dois lados...Impressionante!

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  18. Na verdade, a questão não é ser contra ou a favor, e sim ser alguma coisa. Imparcialidade é que não dá!

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  19. Não contextualizar e se dizer imparcial, isso é jornalismo bom? Estamos na merda, então. Esse papo RIDÍCULO de imparcialidade é a pior coisa que o Jornalismo pode fazer para a sociedade. Nem precisa ler muito. Só o "Sobre a televisão" do Bourdieu. Ele - Eduardo - não viu boa parte dos mínimos detalhes ocorridos - ninguém vê! - é ÓBVIO que ele tem uma visão PARCIAL - vou repetir pra ficar claro: PARCIAL - dos acontecimentos. COMO UM JORNALISTA VAI SER IMPARCIAL???
    Sim, alguns estudantes agiram de forma errônea.
    Houveram excessos nos dois lados, COM CERTEZA, mas chamar os caras de baderneiros - e só - é, no mínimo sacanagem.

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  20. Que bom que concordaram comigo.....

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