sábado, 8 de dezembro de 2012

O que se entende da vida?


Nossa vida é feita de pessoas
Algumas que chegam
Algumas que partem
Outras que simplesmente passam
E aquelas que ficam eternamente, advindas no nada

Nossa vida é feita de momentos
Bons, inesquecíveis, com cheirinho de chuva e sabor de chocolate
Ruins, inesquecíveis, que deixam aquele soluço de choro e um frio no coração
Momentos sem eira nem beira, que simplesmente acontecem
Momentos que esperamos por toda uma vida, mas que só acontecem milésimos antes de um último suspiro

Nossa vida é feita de recordações
Aquelas que misturam a saudade e a alegria de uma nova carta
Aquelas que nos trazem o perfume da pessoa amada via simples pensamento
Recordações que nos acompanham para onde quer que fujamos
Recordações obsoletas, do machucado no pé aos cinco anos, ou do brinquedo quebrado pelo irmão mais velho

Nossa vida é cheia de surpresas
Como a do aniversário passado, organizado pelos melhores amigos
Uma telemensagem ao vivo, desconsertante e adoravelmente vergonhosa
O primeiro beijo roubado
O primeiro batimento cardíaco acelerado, anunciando um grande e novo amor
O amor por si só, com suas fantasias e sua inesgotável força

A vida... a vida... inexplicável como ela só
Que nos faz sorrir e chorar
Lembrar e esquecer
Andar, cantar, correr
A vida só nos aponta uma alternativa:
VIVER


* Texto escrito em abril de 2004, quando o autor deste blog tinha apenas 18 anos e achava que sabia alguma coisa a respeito da vida. O título original desta breve divagação é "A Vida" (muito profundo, não?!)

domingo, 18 de novembro de 2012

Pegue leve e leve a vida

E o "Fachemóvel" acabou guinchado
Um farol do carro quebrado, muitas contas vencendo, uma reforma pela metade, pouco tempo para cuidar da saúde e, de quebra, uma pane elétrica que te obriga a chamar o guincho para tirar o carro do lugar. Receita infalível para uma crise de estresse, um piti básico, queixas a não finir sobre a (má) sorte da vida, certo?! Errado.

Nos últimos meses, como pode-se notar pelo abandono deste blog, tem faltado tempo até para coisas básicas. Encarei uma eleição municipal, o corre-corre da política, algumas pendências em casa (saúde da vovó inspirando cuidados) e a reforma do novo apartamento seguindo, paralelo à falta de tempo. Ah, e nesse meio tempo ganhei um carro e, olhe só, ele resolveu dar problema justamente agora, quando as finanças estão à míngua e a reforma entra na fase de acabamento - a mais cara.

Mas, em vez de reclamar disso tudo, resolvi respirar fundo. E, olhem, acho que estou me saindo bem. Fora uma dor de cabeça aqui, uma azia acolá, meu humor até que tem oscilado menos. Neste último episódio, aliás, até estranhei: enquanto o carro insistia em não dar partida, acabei fazendo amizade com o futuro vizinho, conheci a esposa dele e ouvi uma bonita história de vida.

Gilian veio de Minas Gerais para o Espírito Santo há alguns anos. Já morou em Vitória, em Cariacica, em bairros que nunca ouvi falar. Ele e a mulher, Thaís, têm uma filha de cinco anos, Anny, e agora moram na Praia da Baleia (Serra), para onde pretendo me mudar em breve. Sempre viveram de aluguel. Não têm muitos anos de escolaridade e, pelo que me contou o rapaz, levam uma vida não tão próspera.

"Se a gente não ganha nada dos pais e nem tem estudo para ganhar um bom salário, tem que lutar na vida para ter o que é nosso", recomendou-me o vizinho, enquanto tentávamos consertar meu carro. Em vão. O guincho teve que ser acionado e eis que, para minha surpresa, Gilian foi até em casa, trocou de roupa, e se dispôs a trazer a mim e a vovó Santa até nossa casa, em Jardim Camburi (são cerca de 15km de distância). Sim, ainda há pessoas boas e prestativas no mundo! No caminho, viemos conversando sobre o novo bairro, a vizinhança e planos para o futuro. Ele e a esposa ainda têm que terminar a reforma do apartamento deles, mas estão felizes por terem saído do aluguel.

Vida de pedreiro no feriadão, é mole?
Pois é... a vida prega peças. Num cenário de caos, acabei conhecendo uma pessoa do bem. Um cara que, vá lá, deve ter uns dois anos a mais que eu - se tiver! - e que está batalhando muito para deixar um chão para sua pequena filha. Posso eu reclamar da minha vida, tendo um exemplo como esse? Acho que não. Não me faltou estudo, trabalho com o que gosto, estou prestes a ter minha casa própria. O carro, com problema ou sem, eu ganhei - e Deus sabe como tem sido útil nesses tempos de carregar cimento, azulejos, argamassa e rejunte de cima pra baixo.

A vida tem me ensinado muito neste ano. Acho que não foi por acaso - ou talvez tenha sido uma profecia inconsciente - que no último 1º de janeiro eu tenha posto no meu status do MSN: "Que 2012 seja de construção". Estou construindo meu apartamento, minha carreira e, pelo visto, um novo eu. Às vezes é preciso respirar fundo, sorrir e seguir adiante para não perder o fôlego diante de tantas empreitadas. Quem disse que erguer o futuro é tarefa fácil?!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Por que trabalho tanto?

Por que eu trabalho tanto? A pergunta tem sido feita, com frequência, pelos meus amigos. Não há tempo para uma saída no fim da tarde, nada de cinema. Falta tempo para aquela ida ao shopping no meio do dia. Um chopp no fim do expediente? Nunca me animo, sempre com alguma dor de cabeça ou cansaço que me obriga a ir para casa vestir o velho pijama.

Chegou uma hora que comecei a me questionar, também. Por que eu trabalho tanto? Vale a pena deixar minha juventude (já nem tão jovem) passar em frente à tela do computador? Vale a pena deixar de ser o Eduardo para ser só Fachetti, quase 24 horas por dia, às vezes me confundindo até ao atender o meu celular dizendo "Redação"? Muitas perguntas, poucas respostas.

Comecei a trabalhar há cerca de sete anos. Um estágio emendou no outro, veio a contratação e, não reclamo, sempre fui movido pela paixão. Eu busquei esse caminho. Pelo impulso de buscar o novo, de conseguir uma informação exclusiva, pelo desafio de me ouvir e ler com orgulho daquilo que estou transmitindo. Hoje estou me questionando, mas amanhã farei tudo de novo. E depois, e depois. Mas isso significou abrir mão de tantas outras coisas...

Quase não paro em casa. Me dói perceber que minha vovó Santa, que é tudo pra mim, tem cada dia um dia a menos para estar comigo. Um dia a mais de trabalho em horário quase integral significa um dia a menos ao lado dela e de todo o amor que ela me dedica. O coração virou "plano B" na vida e tudo de sucesso que consegui nas letras se converteu em fracasso nas tentativas de dividir os dias com alguém - afinal, quem vai querer dividir um dia que se resume a apurações e cansaço?

Já não sei as músicas da moda, não me jogo na pista de dança, não coloco nas redes sociais o que penso, sem questionar antes duas ou três vezes "o que vão achar disso?". Não fiz a pós-graduação que planejei fazer há anos, não conheci metade das cidades que queria, não me permiti viver as aventuras amorosas que poderia ter vivido - "tenha foco, tenha foco", sempre me cobrei. Ah, a profissão não me mostrou os vulcões e as fantasias que existem ao redor do mundo, como eu imaginei que pudesse ser.

Então, porque eu trabalho tanto? Ah... porque enquanto trabalho, não me faço tantas perguntas.

domingo, 3 de junho de 2012

Breve constatação

Uma noite de sábado à noite pode ser inspiradora. Para os frequentadores da praia e adeptos das ondas dominicais, é bem-vindo o sono reparador, para o dia raiar cedo. Para os amantes à solta nas ruas,  é hora de buscar prazeres, sensações, novidade. Insones, como eu, usam esse tempo para pensar. Pode ser em tudo: no trabalho, nas contas a pagar, na vida, nas histórias vividas e nas frustradas. Surge uma frase:


E agora sim, boa noite. Durma com um barulho (ou um silêncio) desses.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Manias, manias

Tenho manias que são muito minhas. Como qualquer pessoa, reconheço em mim traços, virtudes e defeitos particulares, alguns até inconfessáveis. Alguns me irritam, outros nem tanto. Há dias em que sinto raiva de mim por ser do meu jeito, há dias em que rio de mim e me aceito do jeito que sou (o que me faço ser?).

Tenho mania de franzir a testa em frente ao espelho, pra ver onde a proximidade dos 30 anos já se anuncia. Marcas de expressão presentes, linhas que rasgam a testa. Ok, ok, não são tão evidentes e o "balzaquianismo" (existe isso?) ainda vai demorar três anos a chegar, mas essa mania está em mim. Ah, também gosto de ver até onde consigo arquear a sobrancelha - algo, aliás, que sem notar faço toda vez que algo me desagrada ou me desperta deboche.

Crio frases que me caracterizam por certo tempo. Foi assim em 2002, quando ao pular uma cadeira do auditório do CEFETES e ser advertido pelo professor, exclamei: "- Cruzes!!". Pronto, por um bom tempo, quando os outros alunos me viam nos corredores, repetiam a expressão. Em 2006, eu dizia sempre "- Ai que triste" diante de alguma notícia ou frase pesarosa, e até hoje minha tia Norminha assim se lembra de mim.

Ultimamente tenho repetido à exaustão a frase "- Palavras têm vida", quando me manifesto sobre as profecias que fazemos no dia a dia. É um alerta para ver se eu mesmo me atento de não dizer coisas negativas. Afinal, palavras têm vida e, Deus me livre, não quero nada de ruim por perto!

Tenho mania de passar xampu duas vezes durante o banho, de ler a última página de um livro antes de começar a leitura, de organizar as camisas por cor no guarda-roupas, de entrar com o pé direito em um ambiente desconhecido, de ficar navegando na internet toda vez que estou no ponto ou dentro de um ônibus (para evitar que alguém puxe papo).
 
Não suporto tela de celular suja. Se ao encostar o aparelho na bochecha para falar ele mancha, perco alguns segundos esfregando qualquer pedaço de pano para ver o display novamente nítido. Meu celular tem uma "portinha" para conexão USB que fecha e abre para encaixar o cabo, e vez ou outra, me pego num "abre-fecha-abre-fecha" instintivo, só para ouvir aquele barulhinho do encaixe da peça.

Um costume irritante é dizer "- Uhum" quando concordo com algo e "- Agradeço muitíssimo" quando encerro uma entrevista. Às vezes nem estou agradecendo coisa alguma, é verdade. Tenho mania de repensar cenas vividas e projetar finais diferentes para diálogos. De imaginar situações factíveis com início, meio e fim, a ponto de acreditar tanto nas minhas versões que, quando se tornam reais, prefiro o que criei.

Tenho a estranha mania - um vício, até - de percorrer com os olhos todos os cantos do rosto de uma pessoa enquanto estou conversando. Cultuo a mania de acreditar no ser humano, mas tendo no bolso meus "poréns" e defesas para uma rota de fuga. Mania besta, essa, de estar sempre em busca do que não consegui.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Vida de novela

Seria mais fácil se a vida fosse como nas novelas: acordar penteado, com hálito fresco, ter a casa sempre arrumada, as toalhas de banho sempre bem dispostas, sair e entrar do serviço a hora que bem se entende e, nas adversidades, adiantar dias e meses de uma cena para a outra.

Viver seria mais simples se pudéssemos escolher os vilões e mocinhos com quem lidamos. Se tivéssemos a certeza da derradeira cena do acerto de contas. Seria bom poder quebrar a casa toda num acesso de fúria, com a certeza de que, passados 30 segundos, a casa estaria limpa e organizada novamente. 

Os casamentos seriam mais felizes se, como nas tramas, as pessoas reconhecessem suas almas gêmeas só por olhar. Se os casais se cruzassem nas ruas e o vento soprasse diferente para levar um ao outro amado; se as crianças viessem lindas e bochechudas - sem cocô na fralda, sem choro de madrugada, sem golfada no ombro. 

As cerimônias de enlace seriam perfeitas se, como nas fábulas televisivas, não envolvessem contas a pagar depois, muito estresse, salão de beleza lotado, frio na barriga, briga de familiares por saber quem será ou não padrinho. Desta forma, o Brasil seria recordista mundial de uniões e as igrejas não teriam datas livres até, sei lá, 2014. E os padres, claro, suariam menos se só precisassem dizer "- Se alguém tem alguma coisa contra esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre" sob as pesadas vestimentas litúrgicas.

Seria mais fácil se a vida pudesse ser adiantada em capítulos. Se a sinopse pudesse ser conhecida e decorada. Se nossas reações às chamadas pudessem ser ensaiadas à exaustão, até a cena ficar perfeita. Os dias seriam menos angustiantes se houvesse a certeza de que no dia seguinte as pendências se resolveriam. Se os mocinhos, mesmo distantes, tivessem a clareza de que encontrariam as mocinhas; se os antagonistas tivessem punição garantida ao fim da trama.

A vida seria deliciosa se toda casa tivesse piscina sempre limpa, se as festas fossem cheias de gente bonita, se o espumante estivesse sempre gelado na medida certa. A alegria da vida seria contagiosa e definitiva se como nas novelas as doenças mais diversas tivessem cura sem tratamentos longos e penosos e se cada um de nós tivesse uma trilha sonora própria para embalar os momentos especiais.

Seria bom conhecer os planos que Deus, o autor oculto e silencioso, tem para seus personagens. E se assim não pode ser - já que estamos fadados a desencontros, a amores não correspondidos, a cabelos desalinhados, a contas a pagar no fim do mês e à eterna incerteza do amanhã - só nos resta, vilões e mocinhos, coadjuvantes e protagonistas, esperar pelas cenas dos próximos capítulos.

domingo, 20 de maio de 2012

Um eterno "E"

Numa rápida olhada aqui no "Fachettoides", percebi que por algumas vezes escrevi sobre a complementação de sentimentos: Tempo, pessoas e lembrançasCasas, pessoas e nossos cômodos, Mentiras & Renúncias, Dúvidas, exclamações e reticências, por exemplo. Agora há pouco, vi no Twitter uma postagem da jornalista e cronista Ana Laura Nahas sobre "Moacir Scliar e o sentido da vida". Texto leve, simples, direto, sobre essa busca que cada um de nós tem por respostas.

Conta Ana Laura que o escritor gaúcho pretendia, em vida, entender o que dá sentido à existência. Já me peguei diversas vezes com a mesma questão e devo ter falado disso uma dezena de vezes por aqui. Mas não é esse meu mote por agora. É dissecar justamente esse "e" que sempre colocamos no dia a dia. 

Sempre queremos entender "dúvidas e exclamações", "mentiras e renúncias", o certo e o errado, o bom e o mau. É um eterno mais, mais, mais, como se não bastasse uma única resposta. Aliás, na faculdade, fui ensinado a sempre deixar o silêncio do entrevistado constrangê-lo de alguma forma. "- Quando o entrevistado se calar, no meio de uma pergunta embaraçosa, fixe-o como se esperasse o 'e'", disse-me uma professora. Mal sabia ela que eu, desde que me entendo por gente, persigo o desconhecido.

Busco respostas (dos entrevistados e minhas) que me levem além. E (olha o "e" aí!) acho que essa mania não é só minha, visto que tenho vários conhecidos que estão sempre atrás daquilo que ainda não chegou ou não se expôs. A quinta letra do alfabeto, essa conjunção aditiva, surge intempestivamente para unir orações, palavras, para inibir pontos finais. Aliás, existe medo maior que o tal ponto final definitivo??

A religião ensina que a fé nos move. A terapia orienta que o autoconhecimento alavanca. O jornalismo disciplina a busca pelo inusitado. No fim das contas, seja por que via for, sempre estamos atrás do que não temos, de modo que o que já está conosco precisa ser complementado. Amor só é amor com fidelidade e proximidade e lealdade e confiança. Sucesso só é sucesso com estabilidade e prazer e crescimento e reconhecimento e dinheiro. 

Acho que estamos condenados, desde o nascimento, a ir atrás daquilo que não temos. Quando conseguimos (um relacionamento, um emprego, uma roupa ou carro novo), logo partimos para outro desejo e outro foco e um detalhe que seja. A vida é um eterno acrescer... para crescer.

sábado, 28 de abril de 2012

Medo de viver

Enquanto trabalhava, hoje pela manhã, ouvi uma frase muito boa, que me foi dita pela chefe e amiga Andréia Lopes: "- Na vida, se a gente tiver medo, não faz nada". Andréia não é a autora da frase e também a escutou de alguém com mais experiência de vida, mas, poxa, acho que era justamente sobre isso que eu precisava refletir.

Por que a gente deixa de dar um passo por simples e inexplicado receio? Quando olho para trás, vejo que um dos meus primeiros medos foi de tirar sangue. E eram inúmeras as vezes que eu tinha que encarar a agulha por problemas de saúde. Na década de 90, quando fiquei um ano internado no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio, tinha que coletar sangue dia sim, dia não. As manhãs começavam com martírio e medo. Muito medo.

Depois, veio o medo de andar de bicicleta - e desse aposto que muitas pessoas sofreram. Abandonar as rodinhas do eixo traseiro foi difícil, eu não conseguia me equilibrar e ralhava comigo pelo fato de os colegas da rua, todos, já conseguirem guiar uma "magrela" por conta própria. Anos depois, meu medo foi o de encarar um aro 18 e cair como jaca no chão (e caí!).

Houve o medo de tirar zero, de não passar de ano, de decepcionar minha avó, de nunca perder os quilos a mais das férias, de não conseguir estágio, de não ser contratado na empresa, de amar e não ser correspondido, de não conseguir dinheiro para pagar a fatura do cartão de crédito... medos diferentes, em momentos distintos, mas que - veja só! - passaram pelo simples motivo de terem sido encarados.

Muita gente por aí tem medo da vida e se tranca em si. Na minha opinião, este é o pior dos castigos, porque se mutilam da própria história fatos que nunca existiram. Substitui-se o risco do fracasso pela dúvida insanável. E ter medo é o de menos: dá pra fechar os olhos, pensar três vezes, aproveitar uma centelha de coragem e ir adiante.

Se eu nunca tivesse tirado sangue, jamais detectaria anemias e infecções que foram tratadas. Se não pedalasse, jamais teria descoberto o prazer do vento no rosto, a sensação de liberdade de ver o mundo passando mais rápido por mim. Os zeros que tirei... ah, doeram, é verdade, mas hoje rio deles. E rio até mais quando me lembro que por não passar de ano por dois anos seguidos em Matemática, no Cefetes, acabei com a matrícula cancelada.

Já tive que pagar juros pela fatura do cartão de crédito atrasada, já tive que trabalhar como assessor por não ter sido contratado onde eu queria, vivo numa eterna luta contra a balança e, como não sou perfeito, também já tive minhas paixões e amores equivocados. Não deixei de chorar, não deixei de sorrir, não deixei de ter medo, é claro. 

Mas também não vou deixar de viver.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Contadores de histórias

A despeito de todas as críticas e patrulhas ideológicas de todos os dias, o jornalista é, antes de tudo, um contador de histórias. Não de contos de fadas, onde as pessoas andam por vales verdejantes, com pássaros, borboletas, príncipes e sapatinhos de cristal. O jornalista escreve histórias corriqueiras, de encontros, desencontros, muitas lágrimas e também muitos risos.

Ser um contador de histórias requer mais que imaginação ou inspiração. É preciso olhar com cautela, com o mínimo de sensibilidade. Nossos personagens não dormem à espera do beijo de amor verdadeiro, não têm sete anões como amigos, tampouco tranças gigantes para fugir de castelos. Falar de gente de carne e osso é difícil.

Esta semana, em especial, li e escrevi histórias que pouco deviam a enredos fictícios. Acompanhei a tragédia de um povo analfabeto, sem postos de saúde adequados, sem estradas pavimentadas que viu seu chefe ir parar atrás das grades por desviar royalties de petróleo que poderiam fazer de sua cidade a mais rica e próspera do Estado.

Escrevi sobre a "ambiciosa" mulher que em 24 horas do dia, ocupava a Secretaria de Educação, a de Habitação e a de Assistência Social. Sobrinha do prefeito - acusado de chefiar uma quadrilha - ela não repetia roupas para trabalhar. Como uma verdadeira abelha rainha, mandava e desmandava no dinheiro do povo e no interesse de empreiteiros, políticos e aliados que formavam um enxame de corrupção.

Por fim, sofri com a angústia de cinco jovens que desapareceram misteriosamente rumo à Bahia. Isadora, Rosaflor, Marllon, Amanda e André deixaram o Norte do Espírito Santo para uma celebração de vida. Por quatro dias, seu desaparecimento transformou a vida de toda a população em angústia. Interrogações infinitas. Onde estariam? Por que não davam notícias? As correntes de oração se espalhavam pelas redes sociais enquanto as autoridades tentavam - por terra, água e ar - encontrá-los.

A espera não teve final feliz. Os protagonistas da história foram encontrados, há poucas horas, submersos em um rio no Sul da Bahia. Talvez jamais saibamos o que aconteceu nessa história. Do que falavam, o que ouviam, como despediram-se da vida? Não consigo imaginar a dor da mãe de Isadora, que comemoraria aniversário no dia da viagem sem volta da filha. Dói só pensar na angústia, na dor, nas respostas que jamais serão respondidas e significarão, para essas famílias, eternas lacunas.

O jornalista, como eu disse, é um escritor de histórias. Mas foge ao nosso controle o início, o meio e o fim dos enredos; mocinhos, vilões, bruxas e fadas confundem-se. Às vezes, em questão de horas, oscilamos do drama ao êxtase do ser humano. Para nossa frustração como autores, nem sempre é possível terminar a história com "viveram felizes para sempre". E, muitas vezes, terminamos nós, tristes, com o desfecho das histórias que contamos.

Que descansem em paz, Isadora, Rosaflor, Marllon, Amanda e André.

domingo, 22 de abril de 2012

Almas calejadas

Sabe sapato novo, que logo que você calça, pega um pouquinho ali, aperta um "cadinho" lá, tira uma casquinha acolá? Acho que ocorre o mesmo com a alma da gente. A cada novo relacionamento - e lá vem chavão! - aprendemos um pouquinho sobre como "encaixar melhor". E não estou falando de sexo.

O primeiro namoro geralmente é o All Star. Todo mundo tem um em alguma época da vida. É simples, inspira atitude,  cai bem com qualquer coisa. No primeiro namoro, a gente se contenta com idas à sorveteria, ao cinema, acha o jeans+camiseta a mais bonita das produções. Mas sabe como é All Star, né? Machuca pra caramba, demora a "pegar o jeito". Se você exagera no sentimentalismo, se qualquer coisinha te incomoda, pode ser motivo para deixá-lo no armário.

Depois vem a fase do Mizuno, ou do Adidas. A gente começa a buscar algo que seja simples, mas que ofereça conforto. Que mostre para quem nos olha que "- Oi, eu estou por cima, olha só!". Superar a época anterior, do amor simples e ingênuo que deixou marcas exige paciência e, por diversas vezes, queremos só ver vitrine em busca do modelo ideal. 

E essa busca pelo diferente, pelo novo, exótico, caro, bonito, gostoso, arrojado, glamuroso e confortável vai nos calejando. À medida que as histórias vão acontecendo, que gastamos sola de sapato atrás desse modelo de perfeição, a alma vai amadurecendo, aprendendo onde é preciso encolher os dedos, quando é possível pisar mais firme, em que terreno pode-se saltar sem medo de romper as articulações.

A cada mudança, um novo calo. Em cada calo - seja nos dedos, seja na alma - criamos, para nós mesmos, motivos e barreiras para não nos machucar mais. "- Não quero mais quem me proíba de sair"; "- Não aceito que me deem ordens"; "- Jamais admitirei um namoro com quem não trabalhe"; "- Quero alguém com foco e conteúdo". E quer saber? Deixamos de experimentar algo que nos afague e proteja pelo simples medo de machucar aquela ferida mal curada.

Só tem um detalhe, que é preciso não esquecer: pessoas não são sapatos. Portanto, não dá para pensar que elas ficarão para sempre em uma prateleira à espera do dono perfeito; tampouco acreditar que, uma vez descartadas, não encontrarão mais ninguém para caminhar junto nessas vielas tortas e misteriosas da vida a dois.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Velhice é melhor idade para quem?

Tenho protelado, há algumas semanas, minha volta ao blog. Às vezes até vem alguma "luz" para escrever, mas no geral tenho estado melancólico, como se pensasse constantemente nos rumos que estou dando à minha vida. Trabalho demais? Estudo de menos? Penso demais nos outros e pouco em mim ou seria o contrário? Perguntas sem respostas. Aliás, respostas existem, mas não quero admití-las.

Em parte, todos os meus pensamentos melancólicos e bucólicos levam a uma única figura: vovó Santa. Já falei dela algumas vezes por aqui, mas talvez nunca com detalhes. Vovó é mãe da minha mãe e, desde que me entendo como gente, é também minha mãe. Quando nasci, lá em Belém do Pará, sem esfôfago, prematuro e cheio de recomendações médicas, vovó logo foi cuidar de mim. Era ela quem me alimentava pela sonda que havia no meu abdome, que dormia sentada abraçada a mim quando ardia em febre madrugadas a dentro. Era vovó que me acompanhava às visitas médicas.

É da vovó que me lembro ao meu lado na missa, quando aprendi, sozinho, a rezar a Ave-Maria. Era ela quem me levava de mãos dadas à escola e que brigava por mim quando (às vezes merecidamente) a professora me repreendia por algo. Como minha mãe sempre foi um espírito livre, que não se sentia confortável às amarras da maternidade, vovó Santa sempre assumiu esse papel... e é como sempre a vi. Doce, presente, sentimental, superprotetora (até demais).

O tempo passou e eu cresci. Com a idade, vovó encolheu (não tem nem 1,5 metro, coitada!). Vieram as preocupações médicas. Dois stents no coração, uma dezena de remédios, cuidados com tireoide, com o sono, com a memória. Em outubro de 2009, celebramos os 80 anos da vovó com uma grande festa em Colatina. Filhos, netos, bisnetos... todos reunidos. Pegamos ela de surpresa com bolo, faixa, churrasco. Uma festança gostosa, com direito a pasta de mensagens assinadas por cada um de nós - inclusive os netos "adotivos" (meus amigos, inclusive).

No mês de março seguinte, mamãe se foi, e vovó nunca mais foi a mesma. Há dois anos, acompanho vovó cada vez mais distante daquilo que sempre foi. Não há mais aquela vaidade de antes. A memória apaga algumas passagens, a fala parece cada vez mais baixa e lenta. O processo parece ter se acelerado de dezembro para cá, quando nos mudamos de apartamento. Vovó saiu "do canto dela" e até hoje parece relutar à nova casa.

Temos ido mais a Colatina. É como se algo me dissesse para aproveitar mais o tempo ao lado dela, levando-a mais para perto da família. Tento, do meu jeito, consertar elos que lá atrás ficaram desgastados; ao mesmo tempo, gostaria de ter mais gente por perto para ver se vovó reage a esse momento, se algo nela consegue ser maior e mais forte que a tristeza de ter perdido uma filha sem ter podido dizer adeus. Parecem tentativas em vão.

Aí pergunto: quem inventou a expressão "melhor idade" para definir a velhice sabia o que é ser velho? Certamente essa pessoa não havia chegado aos 80 anos. Me perdoem os entusiastas da ideia, mas o passar do tempo só faz acumular rugas e dispersar a vitalidade da juventude. Dói para quem envelhece e machuca, ainda mais, quem está por perto e não se preparou para encarar a brevidade da vida. Porque dizer "adeus" não é "melhor" para ninguém.

PS * A propósito, hoje, dia 09/04, completo 1 ano de "Fachettoides".

segunda-feira, 19 de março de 2012

Paradoxos, paradigmas e interrogações

O que estamos fazendo de nós? Mudos, estáticos, incomunicáveis. Falamos com a secretária, com os clientes, com as fontes, com os amigos de boteco. Falamos com todos: da ascensorista ao governador. Mas não conversamos com nossa consciência. Não falamos com nosso íntimo e secreto.

De que adianta retratar histórias, escrever o que os outros pensam, expor as preferências alheias se, em igual intensidade, nos trancamos em pudores? Se é preciso esconder de quem gosta, que ideologia segue, que artista/político/celebridade admira ou odeia. De que valem tantas canções bonitas tocando na vitrola se, por dentro, há mudez em larga escala?

Beira o ridículo nossa necessidade de agradar aos outros, desagradando a nossos próprios sentidos. Não gosto de jiló, mas minha mãe adora. Não gosto de samba, mas minha namorada quer requebrar. Prefiro piscina à praia, mas por que não agradar minha colega que está em busca de sol e água salgada? Creio que, como tudo, o exagero em ser simpático, agradável e acessível a todo tempo surte um efeito devastador se alguém deixa de agradar ao único expectador que nunca se afasta da plateia da alma: a si mesmo.

Muito trabalho, pouco lazer. Muito fast-food, pouco sabor. Corpos à vista em microvestidos que encobrem corações com frio. Braços torneados e fortes em homens que por dentro temem um sincero não. Está tudo fora do lugar! Desculpem, isso é um desabafo. Uma alma em busca de seu corpo. Um corpo em busca de seu lugar no mundo.


quarta-feira, 14 de março de 2012

Toc, toc, toc, é o amor da sua vida!

Ninguém vai bater à minha porta e dizer: "- Oi, cheguei, sou a pessoa certa para você". É lindo imaginar a cena, mas ela não acontecerá por um simples motivo: a pessoa certa não existe. Por mais sentimental que eu seja, por mais que torça pelos pares românticos nas novelas, sei bem que, na vida real, ninguém acorda penteado, bem disposto e sem remelas após uma noite avassaladora de amor.

Mas, "- Eduardo, como é que a pessoa certa não existe se existem casamentos longevos, gente que comemora bodas de ouro com olhos brilhantes e voz embargada ao recordar as cinco décadas vividas em cumplicidade?", questionarão. Simples: as pessoas se adaptam umas às outras; aceitam manias, implicâncias, dias de mal humor e poucas palavras.

Não dá pra esperar, minha cara leitora, que o príncipe encantado chegue de terno, gravata, perfume gostoso e sorriso branco para apanhá-la pela cintura e oferecer uma aliança de ouro. Isso pode até acontecer, mas até que esse príncipe ponha o traje, será preciso que você passe de donzela a gata borralheira, aturando (e compreendendo) o cabelo malcuidado dele, a unha torta, a tampa do vaso sanitário aberta e o tubo de pasta de dente esquecido na pia.

Você, nobre leitor, que sonha com a garota descolada, compreensiva, que vai incentivar-lhe a ir às partidas de futebol, que vai preparar-lhe bacias de pipoca e manter a cerveja gelada quando a sala de estar virar arquibancada para você e seus amigos assistirem Fla-Flu, desista! Ela não existe. É melhor contentar-se com a ciumenta, melosa, temperamental e controladora (e também com a mãe, tias e primas pentelhas que ela traz a tiracolo).

Certo, na vida das emoções e conquistas, só um fato: ninguém quer ficar sozinho. Diz o ditado que "sempre há um sapato velho para um pé cansado". Então, povo meu, hora de caminhar, ainda que haja bolhas nos pés! Ficar à espera do "toc, toc toc" na porta não vai dar certo. Compreenda: quem vai te encantar não agendou esse compromisso e nem tem obrigação de saber de cor toda a quimérica lista que você formulou para escolher a pessoa perfeita. Ame os defeitos se quiser preservar as virtudes.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Não é fácil perder

Me peguei pensando, assim como quem nada quer, o quanto é difícil, para todos nós, perder. Sobretudo quando o "perder" envolve sentimentos e rupturas, afinal, não conheço nenhuma pessoa que tenha despedido-se de alguém que amava sem enlutar. Dizer adeus, o adeus definitivo, dói profundamente. E mesmo tendo a morte como única certeza da vida (por mais paradoxal que seja), não há como passar por ela sem ver as cores do mundo transformadas em cinza.

A última semana, para mim, foi de muita reflexão sobre essa tal de morte. Completaram-se dois anos da partida de minha mãe. Não houve um adeus, uma carta, uma ligação sequer para que pudéssemos ao menos dizer uma palavra. Não houve doença nem sofrimento prolongado para que me preparasse para isso. Mamãe simplesmente se foi. Essa dor torna-se ainda maior ao lembrar-me de que a despedida (sem despedida) deu-se um dia após o aniversário dela. E naquele aniversário em que mamãe completou seus 54 anos, eu não telefonei para ela. Estávamos brigados.

Pensando em tudo isso, fui à igreja e rezei. Rezei pela mamãe, onde quer que esteja, e pela minha família. Pedi pelos meus amigos - os quais tantas vezes aqui já afirmei, sinto como partes de mim. E, céus, como é difícil aceitar que, mais dia menos dia, todos nos despediremos. Pouco passou e veio a notícia de que um grande amigo perdera o avô, no último sábado. Doeu como se fôssemos parentes. Calei-me num momentâneo luto por um avô que nem era meu, e pela tristeza de uma família que gosto como se dela fizesse parte.

A morte é algo tão forte e impactante que, confesso, não sei nem escrever sobre ela. Senti vontade de vir aqui, nesse cantinho em que eu sou só o Eduardo, sem o profissional Fachetti clamando por coerência, para por pra fora, em forma de letras, esse medo que me arrebata de perder quem gosto. Não consigo imaginar-me sem uma de minhas tias, tampouco sem a possibilidade de abraçar uma das primas que tanto amo. Perdoe-me, Deus, se peco, mas prefiro ir antes dos meus amigos a ter que despedir-me deles.

O avançar da idade de vovó Santa, já com seus 82 anos, me assusta. Tantas vezes já perdi o sono pensando no "amanhã". O que será de mim? Quem serei eu? Fico me questionando se vale tanto a pena trabalhar, trabalhar, trabalhar, na incerteza do que virá futuramente. Reconhecimento? Dinheiro? Prêmios? Quero, quero muito. Mas quero também a vida. Quero os dias com quem que amo. Quero tê-los por perto ou ao alcance do telefone, nem que seja para dizer um breve "estou com saudade".

Por mais que eu esteja falando de mim, algo me faz crer que você, aí do outro lado da tela, em algum momento também já se questionou e já sentiu o coração diminuir no peito ao imaginar-se sem os "seus". É fato: perder não é fácil. E antes que as coisas me escapem das mãos, antes que os dias passem e eu já não tenha a possibilidade de viver com quem amo, é preciso cuidar. Cuidar para que eu não me perca, nem perca um dia sequer sem explicitar meus sentimentos. Porque depois do adeus, só resta saudade e uma dúzia de frases guardadas no baú das lembranças que nunca foram realidade.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Tempo, pessoas e lembranças

Sou noveleiro nato, nunca neguei. Uma das primeiras cenas que recordo, da infância, é da novela "Que Rei Sou Eu?", sucesso da década de 80. Pois bem, agora há pouco, findou na TV Globo "A Vida da Gente", trama das 18 horas que mostrou, com sensibilidade e leveza, as reviravoltas na vida de suas protagonistas. Sem apelar para vilões pérfidos, mortes em série ou humor pastelão, a novela agradou.

Não acompanhei-a como gostaria, é verdade. Às 18 horas, em geral, estou entretido em entrevistas e fechamento de matérias e pouco ou nenhum tempo tenho para prestar atenção à televisão. Mas "A Vida da Gente", mesmo à distância, me prendeu com seu contexto simples, que resumidamente é o seguinte: as histórias de todas as pessoas têm altos e baixos. Ninguém está certo 100% do tempo, tampouco erra a vida inteira. Convivemos com dúvidas e escolhas o tempo todo. E entre erros, acertos, encontros e desencontros, faz-se a vida.

Mas, não, não abri o blog para falar de novela (embora possa comentar centenas delas, algumas com riqueza de detalhes e impressões). Quero falar de gente. De gente que passa pelas nossas vidas ora na correria, ora no atropelo; histórias que se cruzam às nossas por um dia, dois... e muitas que acabam se juntando àquilo que somos e ficam para sempre.

Por exemplo: certa vez, ouvi de uma garota: "-Nossa história não terminou". E não se tratava de alguém que eu tinha em alta estima. Nem mesmo era alguém que fazia parte da minha vida. Foi, tão somente, uma pessoa com quem troquei dois ou três beijos, numa festa que já se foi há, sei lá, oito ou nove anos. Mas, sim, aquela história (para mim) terminou ali - muito embora quando eu veja fotos dessa garota em alguma rede social, acabo soltando um risinho de canto de boca, com um "quê" de molecagem guardada daqueles tempos...

Há, ainda, gente que eu conheci faz certo tempo, não dei importância e, numa dessas reviravoltas do destino, reapareceu para me arrebatar. Como é que, lá atrás, eu não notei aqueles olhos, aquela boca? Como, distraído, não dei importância às palavras de carinho a mim destinadas e deixei-as ir embora? Coisas que só lá na frente saberei (talvez) entender; agora só me cabe pensar e repensar no que não fiz, no primeiro ato, e o que quero que aconteça.

Creio, de forma modesta, que você, leitor, também tem suas histórias guardadas. Nem que seja da garotinha da escola de 1º grau que tinha o perfume mais cheiroso e encantador da turma ou, quem sabe, daquele beijo roubado na aula de Ciências, quando o professor foi atender à pedagoga no corredor. Na sua história - aposto! - tem espaço para o rancor guardado pelo amigo que beijou a garota que você gostava na adolescência e também para a lembrança envergonhada do dia em que seus amigos de faculdade tiveram que te carregar, embriagado, do bar.

A vida da gente é um turbilhão de sensações. Um sobe-e-desce de longo trajeto, uma sucessão de atos e omissões que nos definem. Como bem escreveu Lícia Manzo, a autora da recém-terminada novela das 18 horas, "tudo na vida muda (...). A única coisa que não muda é o tempo, que segue sempre adiante". Assim é. Não sabemos hoje o que será de nós amanhã. Não podemos desmanchar o que fizemos ontem. Resta-nos, portanto, ir andando com as pedras no sapato, com os calos doídos, com a cara dada ao vento para continuar em frente.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Acabou o carnaval. Feliz 2012!

Não é exagero dizer: nesta segunda-feira, 27 de fevereiro, é o primeiro dia útil de 2012. Pelo menos para nós, brasileiros, que insistimos em empurrar o ano com a barriga - com menos reuniões, menos compromisso com as dietas e, por que não admitir?, com menos vontade de trabalhar. E a Quarta-feira de Cinzas, a quinta e a sexta subsequentes servem apenas para "recarregar baterias" do folião exausto. Pois bem, chegou a hora de deixar o "alalaô" de lado. Feliz Ano Novo!

E este ano, como todos os anteriores, começa com culpas e pensamentos positivos. Não, nada de peso na consciência por causa dos exageros gastronômicos na Ceia natalina (algo que sentimos no 1º de janeiro, o rèveillon oficial); começamos o ano pensando em quem fomos e o que fizemos nos dias da Festa do Momo, quando colocamos as máscaras, vamos para as ruas e nos esquecemos das máscaras sociais que usamos no resto do ano. O pensamento positivo é inevitável: "- Tomara que ninguém tenha me flagrado!", vai dizer que não?!

Ah, o carnaval! Neste, peculiarmente, o que se viu foram Janetes & Valérias pelas ruas, "novinhas" em busca de "novinhos" e muito "Ai, se eu te pego" - em todos os ritmos possíveis. Embora a festa da carne oficialmente seja uma terça-feira, para muitos a folia se estende deste a sexta-feira anterior. Portanto, não adianta omitir que muita gente muda de nome, de idade e de propósito por cinco dias. Na quarta-feira, restam apenas as cinzas.

Nesta segunda-feira, caro leitor, esteja preparado para reconhecer naquele colega de trabalho o cachaceiro que caiu no meio da rua, na sua frente, na segunda-feira de carnaval; não se espante se a menor aprendiz lhe parecer familiar, como um revival da funkeira que te seduziu no domingo passado. E esteja preparado caso fotos comprometedoras, das quais você nem se lembra, surjam nas redes sociais.

Lembre-se: você só é você durante 360 dias do ano. Nos cinco de carnaval, seu alter-ego te dominou, embora você tenha tentado, bravamente, resistir às tentações. Agora, brilho nos olhos, água no rosto, cabelo alinhado e vá à luta. O ano começou. E tomara que passe rápido, para que o próximo carnaval comece, no dia 8 de fevereiro de 2013.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Adolescentes tardios

Ensina a ciência, amparada pela Organização Mundial da Saúde (OMS): a adolescência, período de transição entre a infância das regalias permitidas e a maturidade das escolhas, se estende dos 10 aos 20 anos de idade. No Brasil, leis tratam como adolescentes indivíduos entre os 12 e os 18 anos. Mas este terceiro milênio parece ter mudado a ordem de algumas fases, e não se assuste se você topar com alguém beirando os 30 anos com comportamento quase infantiloide.

Não falo aqui dos adultos que moram com os pais e ainda são sustentados por mesadas - muito embora ache isso um tanto estranho, confesso. Refiro-me a indivíduos independentes, que ostentam cabelos brancos, um pé-de-galinha ali, outro acolá, mas que se comportam como recém-saídos da 8ª série do Ensino Fundamenta;, cheios de medos, mudanças de humor e comportamento, como se seus hormônios ainda estivessem em fase de ebulição.

Eles querem ser gente grande e bancar decisões e posturas, mas não sabem nem a que vieram ao mundo. Num dia, querem um grande amor. Passadas 24 horas, decidem só buscar sexo fácil. E, se bobear, chegam à manhã seguinte querendo dormir abraçados ao ursinho de pelúcia, com medo do bicho-papão em que se transformara a vida. Eles se dividem entre compromissos profissionais e bares de azaração para "novinhas" e "novinhos", desconsiderando as marcas que trazem na pele - será que têm em casa um espelho turvo?, penso.

Há, por aí, muitas secretárias, professoras, arquitetas, e também engenheiros, jornalistas, administradores e advogados que gostam de jogar na mesa os títulos conquistados mas que, por dentro, carregam um vazio existencial. É clichê, eu sei, mas parece que nos tempos atuais prevalece mesmo a máxima do "ter é melhor que ser". Então, se você tem emprego, roupa de marca, carimbos no passaporte e algumas notas na carteira, não faz diferença comportar-se como um ser que vaga em busca de autoconhecimento; tampouco ser um mendigo em busca de migalhas de afeto e palavras bonitas para ludibriar o ego.

Ah, esses adolescentes tardios... brincando com o passar dos anos como se a vida fosse um eterno recreio colegial. Desculpem-me os árduos defensores do diálogo augustocuryano ou das palavras de conciliação de Içami Tiba, mas acho que para conter a demência de adultos de calças curtas, só há dois remédios: o chá de silêncio ou umas boas palmadas, dadas por pai e mãe. Afinal, ninguém é obrigado a curar birra de criança balzaquiana.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A vida real é difícil

Vou começar pelo final: acho a vida real muito mais difícil que a virtual. Vivemos numa época em que substiuem-se sorrisos por "curtidas", abraços por "cutucadas", raivas, angústias e brigas por um simples "delete". Ficou tão mais fácil e simples ser um tamagushi, vivendo de bits e bytes. Pra que respirar e ter sentimentos?!

Sou adepto total dessas bugingangas virtuais. Comecei com o extinto mIRC, onde você entrava em salas temáticas, com tela cinza e apelidos engraçados. Estávamos no início dos anos 2000, o computador quanto maior, mais potente, e nas salas todos se conheciam por nicknames. Em Colatina, onde eu morava, havia até "mIRCONTROS" na sorveteria da Avenida Getúlio Vargas. Eu era }|VoLcAnO|{ (que apelido tosco!) e, como já apresentava tendência a substituir o real pelo virtual, não queria saber da cara dos colegas de bate-papo. Nunca comparecia.

Veio o ICQ. Aquele "owow" característico das mensagens escritas, a possibilidade de ver, em tempo real, a digitação de quem estava do outro lado da tela. Que tempo bom! A cada atualização do programa, ficava fascinado com as novidades, com os recursos. No ICQ, podíamos escolher a cor das letras e havia bonequinhos representando sorrisos, lágrimas, felicidade e raiva... que evolução!

Pelos idos de 2003 ou 2004, veio o MSN. Demorei a me render ao programa de mensagens instantâneas, mas não demorou. Ali, pela primeira vez, eu conseguia ver o rosto dos meus colegas em avatares ao lado direito da tela. Antes, passava meses conversando com alguém sem nem saber como era, só na imaginação (nem câmera digital existia, notem!). E, atire a primeira pedra quem nunca passou por isso: caía sempre naquela de "como vc é", "qual sua altura", "qts anos"... vida de principiante num ambiente rudimentar.

A vida on-line progrediu. Fotolog, Orkut, Twitter, Facebook... aproveitei cada uma dessas "modinhas". Não bastava, a internet chegou ao celular e, admito, vivo grudado ao meu, a ponto de ter criado a mania de só andar de ônibus conferindo redes sociais. E quando a bateria do aparelho se esgota, fico sem ter onde por as mãos, como se me faltasse um membro. Vício!

Por tudo isso, posso dizer: nem sempre as pessoas legais em 140 caracteres são realmente legais. Amigos se constroem à distância, é claro, mas é no olho no olho que se revela o caráter. É no bate-papo gostoso na mesa do bar que se soltam gargalhadas - e não meros hahahah ou kkkk -, é no abraço da chegada que você se sente realmente "curtido", querido e acolhido.

A vida real é tão mais difícil. Temos que lidar com pele oleosa (já que Deus não nos permitiu o Photoshop 24 horas), é preciso murchar a barriga para não parecer acima do peso, às vezes é preciso contar até dez para não "fechar a janelinha" de uma conversa desagradável. No mundo de verdade, as pessoas têm aroma, hálito, cabelo fora do lugar, espinha, acne e roupa com marca de suor após o expediente.

Resumir o dia em poucos toques é viciante. Mas não há prazer melhor que deitar a cabeça no travesseiro e rir, consigo próprio, das situações vividas no mundo dos incômodos, infortúnios, paixões e conquistas que vibram nas ruas. Acho a vida real muito mais complexa, pode ser. Mas até para isso há aprendizado: é possível dar um F5 nas situações pesadas e mal formatadas e seguir para as próximas páginas.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Para tudo há remédio

Para dor de garganta, mel com própolis. Para água no ouvido, álcool. Para pedra nos rins, quebra-pedra. Para queda de cabelo, gema de ovo. Espinha se seca com Minâncora, agulha mata o bicho-de-pé. Para coração ferido, nada melhor do que tempo. Em síntese: para tudo na vida há solução - muitas vezes caseira e sem esforço.

Que atire a primeira pedra quem não possui um telhado de vidro por ter se apaixonado pelo visual (pode ser até por uma foto no Facebook) esquecendo-se de que a vida real tem tato, olfato, paladar e doses graduais de paciência e concessões. Quem nunca relevou pequenos defeitos por acreditar no "para sempre", ou quem aí nunca se odiou passados dias do término de um relacionamento? Difícil!

Mas... tudo na vida passa. Nenhuma dor de dente é infinita, a enxaqueca é curada com repouso e quarto escuro, e basta ir ao banheiro e tomar algum remedinho básico para fazer cessar a dor de barriga. Até o amor, esse efêmero gigante que nos arrebata de estação em estação, passa.

O amor é como a dor de dente, a pedra nos rins, a dor de barriga - só que ao contrário. É um mal como os outros, mas que em vez de aflição e mal-estar, traz alegria; ele inebria, nos toma por completo. Se as dores dos outros órgãos nos pedem remédios para findar, esse tal de amor, que atinge em cheio o coração, precisa de remédio para postergar.

Enquanto estamos adoecidos pelo amor, as contas de celular chegam altas, as noites tornam-se pequenas, aumenta o consumo de pipoca e guaraná no beija-beija da sala de cinema. O amor nos deixa tolos, meio cegos. É um mal que não incomoda. E quando passa, deixa tudo vazio: dias cinzas, carranca no lugar do sorriso. O coração sai do terno outono da plenitude e congela em glacial inverno.

No entanto, tal qual as estações do ano, logo chega o tempo de florir em primavera. E se você, caro leitor, está em convalescença, não se esqueça: para tudo na vida há remédio. É recomendável passar o inverno da alma com doses exageradas de boa leitura, música de qualidade pelo menos três vezes ao dia e uso indiscriminado de autoavaliação. Saia para ver o por do sol, exponha-se às zonas de contágio. O vírus do amor não se repete: a cada crise, virão novos sintomas. Sequelas são inevitáveis. Viva!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

"As Cacheadas"

Depois da estreia, logo mais, de "As Brasileiras", reunindo 22 grandes atrizes da televisão brasileira, a TV Gazeta colocará no ar uma nova microssérie, em cinco episódios, contando a trajetória de capixabas que se destacam por terem personalidades fortes. Para o novo projeto, nada de escalar Juliana Paes, Fernanda Montenegro, Sandy ou Xuxa Meneghel. Foram escolhidas pessoas comuns, que a gente vê todos os dias. Em comum, as madeixas onduladas, presas ou soltas, curtas ou longas. Elas são "As Cacheadas". A conferir:

A estadista do Itabira (Andréia Lopes)
Ela veio ainda pequena das distantes terras de Cachoeiro de Itapemirim. Inquieta, desde menina corria os morros da cidade cantarolando Carlos Gardel, e se enganavam os que achavam que pode detrás da cabeleira loura se escondia um anjo. Andréia tinha um desejo oculto: levar o mar até a Terra do Rei Roberto. Como geografia não se muda, ela infiltrou-se na Capital, formou uma gangue de mulheres bronzeadas e há mais de dez anos aguarda o momento exato para dar o golpe de Estado. Será que ela conseguirá ampliar os domínios de Cachoeiro até onde batem as ondas do mar, em Camburi?

A novata da Casa (Elisa Rangel)
Ela é misteriosa. Chegou há pouco ao condado das cacheadas e guarda um grande segredo do passado: a cacheada morena já teve uma passagem pela polícia. Terá sido ela uma delegada? Uma foragida? Dizem que ela é uma agente disposta a desarticular o esquema da Estadista do Itabira, para evitar que Cachoeiro, terra fresquinha e pacata, herde uma praia sem quiosques. Ou será que ela usará suas informações privilegiadas na área policial para desmascarar os criminosos do colarinho branco?

A magistrada de Marechal (Ednalva Andrade)
Mulher de fibra, mulher de coragem, Ednalva vestiu a toga por cima da peixeira e está disposta a vencer o mal. Na infância, a menina moça das serras capixabas aquecia as mãozinhas na fogueira antes de ir para o grupo escolar, com tantas outras criancinhas ingênuas. Mas o calor do fogo não era maior que o ardor de seu senso de justiça. Ednalva quer mais, muito mais. Quer vênias, recursos e jurisprudências para se transformar na guardiã da moralidade e da conduta ilibada. Quem entrar em seu caminho arcará com os rigores da lei.

A rica do Mochuara (Vera Ferraço)
Ela faz o estilo femme fatale. Sapatos altíssimos nos pés (vermelhos, claro), cabelos cor de ouro com corte desestruturado, Vera se transforma num furacão toda vez que entra no carro. No porta-luvas, um Veuve Cliquot: ela gosta de dirigir perigosamente pelas avenidas de Cariacica e corta a BR-262 sem tirar o pé do acelerador. Aclamada pelos lojistas e invejada pelas loiras lisas sem pedigree, ela carrega no nome o peso do poder: Ferraço. Dizem as más línguas que foi dela a ideia de uma máquina de fazer chover em Cachoeiro de Itapemirim. Seria esse também um dos motivos que trouxeram Andréia à Capital: ela quer vingança, pois toda vez que passava no Centro de sua terra natal, tinha os óculos molhados graças à engenhoca ferracista.

A bailarina que samba (Mariana Montenegro)
Ela nasceu em Vitória e desde pequena queria ser famosa. Madeixas esvoaçantes, sorriso no rosto, pavio curto. Por trás dos olhos de calmaria, se esconde uma mulher que estremece Vitor, seu fotógrafo oficial e amante misterioso. Ele faz um tipo Clark Kent, com óculos à Superman; ela usa da leveza que aprendera no balé para desfilar pelos corredores do poder e sambar na cara de quem a tem como meiguinha e boazinha demais. Mariana é uma mulher de artimanhas: faz voz melosa e sorri aparentemente ingênua para saber tudo que se passa nos bastidores da sociedade capixaba.

Carlos, o homem do espelho

Após um exaustivo dia de trabalho, ela parou em frente ao espelho para arrumar os cabelos. Estavam desalinhados, daquele modo que só uma mulher à beira de um ataque de nervos sabe como é. O batom já gasto, as olheiras marcando os olhos, tudo estava ali, nítido. Mas não havia só isso no reflexo. Havia um homem. E ele a olhava fixamente.

Corre de lá, corre de cá. O trabalho, naquela noite, era tirar do presidente alguma frase que indicasse seu futuro político. A aglomeração em torno do político era tamanha, que a caneta saltou-lhe das mãos ao esbarrar em um deputado. Abaixou-se. Tocou o objeto. Mas, sobre suas mãos, estavam as mãos dele: o homem do espelho. Moreno, alto, camisa verde que marcava o dorso. Cabelos levemente despenteados. Sorriso largo, mãos grandes. Sorriram, mas ela recuou desviando o olhar. Voltou a trabalhar.

Passaram-se alguns minutos e ela, já à espera do colega que lhe renderia o expediente, sentia-se monitorada por aqueles olhos castanhos. Como um totem onipresente naquele salão de eventos, estava o mesmo rapaz. Com os mesmos olhos, o sorriso que escapava pelo canto da boca, ele a espreitava em todo canto. A situação era, ao mesmo tempo, incômoda e instigante. Mas ela decidiu desviar e, para não sucumbir ao cansaço - já passava das 21 horas, e estava de pé desde as 5 -, decidiu lavar o rosto.

Bastou que entrasse no banheiro, aquele homem veio atrás. Não importava que recinto era aquele, tampouco a multidão que lá fora se espremia. O presidente resolvera falar de economia. Os puxa-sacos palacianos o aplaudiam efusivamente, de modo que o barulho impedia que qualquer grito ou gesto de fuga fosse percebido pelos convidados. Ela abaixou-se para lavar o rosto. Fingiu não se dar conta daquela presença masculina, imponente. Ele, por sua vez, foi ao box fazer suas necessidades (que outra necessidade haveria, num banheiro pequeno, se não seduzir aquela que fora escolhida a presa da noite?) - detalhe: com a porta aberta.

Terminada a atuação no box, ele manteve a calça desabotoada. Aproximaram-se. Ele percorria o dorso com a mão direita como se mapeasse o trajeto para que ela seguisse. Ela, trêmula, acompanhava com os olhos. Tocaram-se. Ele a puxou com força pela cintura e pediu que cedesse. Ela ameaçou sucumbir; respirou fundo. Os aplausos ao presidente, lá fora, a chamavam ao compromisso profissional. Ele tomou seu crachá às mãos. Susurrou seu nome. Sorriu malicioso.

Num insight, ela lembrou-se, ao menos, de perguntar o nome daquele homem que a acompanhara por toda a noite. "- Carlos", respondeu, breve e grave. Para depois, completar: "- Você trabalha com Áureo... bravo. Difícil. Homem rígido. Você deve ter muito trabalho". Mal sabia ele que o maior trabalho, naquele instante, era não deixar-se levar pelos instintos que a corroíam a alma. Carlos a tomou nos braços. Ela, vencendo o medo, tocou-o com desejo. Nunca houvera situação semelhante.

Nem jamais voltou a haver. Carlos pediu o telefone, sorriu pela última vez, arrumou o cabelo mirando-se no espelho e prometeu ligar. Abriu a porta e a aura de malícia e transgressão foi rompida pelo falatório do outro lado da parede. A fala do presidente terminou. Acabaram as bajulações. Acabou também a paz daquela garota da zona norte, que nunca mais esbarrou e nem sabia onde procurar o homem que roubara-lhe a paz e a compostura profissional. Carlos sumiu.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um dedo de saia, dois dedos de prosa

Elas são um verdadeiro patrimônio cultural do Brasil dos tempos atuais. Chapinha ultralisa feita, unhas francesinhas longas, pernas torneadas por horas de academia, braceletes multicoloridos. Características periféricas ante ao centro das atenções voltadas a elas: o microvestido, um palmo de comprimento.

Recorro a um jargão batido da internet para falar delas: "periguetes não sentem frio, arrepiam para causar". Não entra na minha cabeça que essas moças bonitas, muitas vezes universitárias e cheias de atitude achem cômodo usar uma roupa que mais lhes incomode que lhes vista. Afinal, para manter o par de coxas exposto à visão masculina, elas têm que recorrer ao "puxa daqui, puxa dali" se não quiserem entregar o "ouro" ao olhar dos marmanjos.

E não são só as periguetes que entram no rol das vestidas-mas-não-vestidas. Há as atendentes de consultório que vestem blaser sobre profundos decotes, há enfermeiras que dispensam a lingerie para não terem a derrière marcada, há as professorinhas que usam coque para expor a tatuagem de fênix que começa no pescoço e se estende ao cóccix.

A ala masculina também tem seus representantes. Ou vai dizer que é bonito um homem expor meio metro de cueca por baixo de uma calça frouxa? E essa moda, meu Deus, das bermudinhas com barra italiana acima do joelho? Os mais "descolados" (pra usar a palavra da moda) fazem da gola V um verdadeiro decote, esfregando na cara da sociedade os tufos de pelos que brota do meio do peito. E no time dos modernosos-moderninhos-quero-ser-diferente estão também aquelas criaturas com pelos sob os braços que cortam as camisas e fazem delas regatas profundas, com cavas que vão à cintura.

Tempos estranhos esses em que tudo pode, em que tudo vale. Acho que carrego certo puritanismo besta, e isso me faz desentender o comportamento das pessoas. Pernas torneadas merecem ser vistas, tatuagens nas costas devem servir de chamariz aos pensamentos desejosos. Nada contra!

Mas, gente, saia coxa acima e calça bunda abaixo não são nada bonitas. Nem sexies. Vulgaridade tem limite, e recorro à Lya Luft para terminar meu surto de consultor de closet dos tempos modernos: compostura e canja de galinha não fazem mal a ninguém. Nem um pouquinho de pano a mais, ok?!Link

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os irmãos que a gente escolhe

Pode ser aquele colega de sala que tinha uma lancheira bonita. Pode ser a menina mais bonita da escola, ou até mesmo aquele vizinho ruivo e cheio de pintinhas que sempre te chamava no portão para jogar bola. Talvez suas lembranças te remetam àquela turma que saía pelas ruas apertando as campainhas e correndo em disparada, ou, ainda, à garota que você detestava e que, com o tempo, aprendeu a admirar. De uma coisa eu não tenho dúvida: todos nós temos, no baú das lembranças e dos sentimentos, algum amigo que inevitavelmente faz parte das histórias que, relembradas, fazem sorrir com brilho nos olhos.

Eu também tenho os meus, e costumo chamá-los de "irmãos de alma e de coração". Porque não são meros amigos com quem dividi histórias. São pessoas que me viram crescer, e as quais eu também vi crescer. Loreny, Roger, Valeska... os irmãos que o tempo e a convivência me permitiram escolher. Irmãos mesmo, daqueles que brigam, que fazem bico, que puxam a orelha, que riem juntos. Amigos que fazem parte da minha trajetória. Hoje resolvi falar deles.
Primeiro, Valeska. A "Valeskinha". Mineira de Patos de Minas, chegou à Escola São José, onde já estudávamos eu, Loreny e Roger, em 1999. Tímida, calada, cara de desconfiada. Passamos a 7ª série toda sem conversar direito. Eu era o reizinho mandão da escola. Sabe como é... era sobrinho da diretora, primo da coordenadora... eu me achava o máximo. E, anos mais tarde, Valeska confidenciou-me que me detestava. No ano seguinte, nos aproximamos. Sentávamos perto na sala de aula (e justamente nessa época, eu não conversava com o Roger) e tagarelávamos o tempo todo. Época boa...
Loreny, por sua vez, sempre foi a inteligente da turma. Filha exemplar, responsável, estudiosa. Linda por dentro e por fora, é de longe a mais centrada de nós. Foi a primeira menina com quem dancei quadrilha quando me mudei para Colatina, e ela jura até hoje que queria morrer por isso e que eu pisava no pé dela. Pura mentira! Bem, os anos se passaram e eu não só adotei Loreny como irmã de alma, como sua família também me é muito querida. Tia Tânia, mãe dela, tantas vezes nos aturou em longos bate-papos na copa, à base de suco de caju. Outras vezes, íamos para a casa da Valeska nos deliciar com os bolos maravilhosos da vovó Faninha.
Roger é um caso à parte. É o irmão problemático. Na infância, brigávamos muito. Havia uma disputa interna entre nós que só foi vencida lá pelos anos 2000 ou 2002. Certa vez, eu cheguei a gritar a célebre frase: "- Te pego na saída da escola!!" anunciando minha ira. Não, não bati no Roger. Nem ele em mim. Mas esse amigo sempre foi tão diferente de mim que, por ironia do destino, vejo nele um bom contraponto aos meus excessos de lucidez. Roger sempre foi lunático por natureza, mais atrevido. Vencidas as barreiras entre nós, passamos a nos entender. Ainda bem!

Vi Loreny, Valeska e Roger crescerem. Bem da verdade, Roger não é tão proximo das duas, embora tenhamos todos estudado juntos em certa época. Com Valeska e Loreny, não há limites para as conversas. É pros braços delas que eu corro quando quero ajuda, quando preciso de conselhos, quando quero contar a última novidade. É ao Roger que recorro quando os devaneios me afligem, quando alguma notícia bombástica chega, quando preciso de uma conversa séria e, ao mesmo tempo, engraçada.

Vi Roger se formar em Ciências Biológicas em 2009. Valeska, no ano seguinte, tornou-se engenheira metalurgista. E, logo mais, estarei eu, lá em Minas Gerais, gritando pela vitória de Loreny, que se forma em Direito. Porque com os irmãos da gente é assim: vale correr contra o tempo, vale perder-se nas horas, vale não medir esforços para estar junto. Não há distância, não há separação, não há cobrança. O que existe entre nós é mais forte que o útero que nos separou. Nascemos uns para os outros. Para sempre!