sábado, 31 de dezembro de 2011

Promessas de Ano Novo

No dia 1º de janeiro deste ano, escrevi o seguinte no meu já inutilizado Orkut:

- Vou caminhar na praia;
- Vou voltar para a academia e eliminar o excesso de gordura abdominal;
- Vou voltar a vestir calças e bermudas 38, sem estarem apertadas;
- Vou fazer uma viagem internacional;
- Vou visitar mais minha família;
- Vou ler pelo menos um livro por mês;
- Vou me importar menos com os julgamentos a meu respeito; (CUMPRIDO!)
- Vou tirar minha carteira de motorista;
(CUMPRIDO!)
- Vou assinar uma revista e tentar ler jornais de fora do Estado;
- Vou controlar meus gastos com a cantina da empresa;
- Vou tentar me conter nos chocolates e refrigerantes. "

Como pode-se notar, sou uma negação no quesito "cumprir promessas". Das 11 metas traçadas para este 2011 que já se vai, apenas duas foram, de fato, eliminadas. A batalha contra o peso foi parcialmente perdida (não a guerra!); comecei o ano com 69kg e estou terminando com 72kg. As calças e bermudas 38 fecham sob muito custo, muita respiração presa e algumas marcas na cintura depois.

Os livros, ah, os livros. Li quatro ao longo do ano. Revistas e jornais nacionais foram lidos, sim, mas sem nenhuma assinatura ou periodicidade definida. Tipo assim: "- Já que está aqui, deixa eu dar uma folheada...". As caminhadas na praia foram frequentes até abril. Dali em diante, vieram meses de dobra na empresa, outros afazeres, e a promessa foi deixada de lado. Academia, então, uma novela: entrei, saí, troquei, entrei, saí... cansei. Chocolates, refrigerantes e quitutes (tipo biscoito Alcobaça e salgadinhos gordurosos) da cantina da empresa não foram extirpados do cardápio como deveriam. Enfim, viva 2011!!!

Todo ano esse ritual se repete: a gente quer que o 1º de janeiro amanheça ensolarado. Quer por os pés no chão no primeiro dia do ano tendo menos quilos, mais vitalidade, mais dinheiro na conta. O mundo parece respirar novos ares. A renovação do calendário nos arrebata. Não dura 20 dias essa paz-eterna-no-mundo-da-imaginação. Poucas coisas mudam, de verdade. Sempre erramos a data ao preencher cheques ou pagar contas no caixa rápido, e como esses exemplos, outros erros se repetem no tão inovador (e renovador) Ano Novo.

Mas não posso me queixar de 2011, de forma alguma. Vamos à retrospectiva do que aconteceu:

- Tirei as primeiras férias da minha vida.
- Viajei pelo Nordeste, fiz um cruzeiro e renovei energias;

- Tirei minha carteira de motorista na primeira prova;

- Refomei meu apartamento (não moro mais nele);

- Deixei a CBN e passei a integrar a equipe de Política de A GAZETA;
- Comecei a escrever, como interino, a coluna Praça Oito, no mesmo jornal;
- Fiz novos amigos, dei risada e vivi novas experiências;

- Ganhei o Prêmio Capixaba de Jornalismo, na categoria Rádio;
- Mudei de apartamento, mas já de olho em um sonho ainda maior: em 2012, pegarei as chaves da minha casa própria. Um apartamento novo, em meu nome.

Constato, enfim, que não adianta fazer planos mirabolantes para o ano que vai começar. A gente rema para um lado, a vida flui para outro. E não adianta espernear, chorar, fazer birra. O que tem que ser nosso, será nosso. Seja em 2011, 2012, 2013. Aprendi este ano: tudo, TU-DO na vida tem hora e lugar certo para acontecer. E todos os dias, quando algo não saiu exatamente como eu quis, mentalizei essas palavras.

Para 2012, não quero metas fixas. Quero persistir no meu propósito de ser uma pessoa melhor. Um amigo mais presente, um filho mais amoroso e paciente, um padrinho mais atencioso, um repórter mais centrado, um jornalista mais respeitado. Espero que os próximos 365 dias sejam de muito trabalho - mas também muitos êxitos. Que haja pautas difíceis e prazerosas. Que haja viagens e histórias para contar. Que 2012 seja de amigos verdadeiros e fiéis e que aqueles que se aproximam para "fazer número" se cansem e caminhem.

Que as estradas existam. Que eu não tenha pressa em trilhá-las, e não me falte fôlego para subir os degraus que estiverem por vir. Em 2012, a palavra de ordem é equilíbrio. Vamos em frente!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As coisas que eu não fiz

Ontem, na redação de A GAZETA, recebemos a visita do colega Vitor Vogas. Jornalista dos melhores, dono de uma perspicácia ímpar com as letras, ele resolveu viver um ano sabático pela Europa e, agora, está prestes a ingressar em novo desafio na América do Sul. Contava-nos das viagens, das peculiaridades dos europeus.

E eis que, desde então, reascendeu em mim aquela estranha saudade do que não fiz. Não, não se trata de inveja, nem de vontade de ter feito as coisas que Vitor fez. É algo mais antigo - e não sei se só eu sou assim!. Tenho saudade, certo apego até, de épocas e situações que não vivi. Muitas delas, inclusive, porque nem nascido eu era.

Por exemplo: há dias em que sinto "saudade" de sentar com minha bisavó e rir com ela. Contam-me minhas tias e as primas mais velhas, que a bisa era uma mulher de fato à frente de seu tempo. Numa época em que mulheres eram cheias de pudores e dogmas, a "vovó Mirinda" fumava, falava alguns palavrões e não temia soltar gargalhadas altas. Às vezes até brigava com o biso, que era mais calado, reservado. Acontece que a bisa morreu em 1984, e eu só vim ao mundo um ano depois. Perdi a chance de conhecê-la.

Queria, também, ter ido à praia com meu pai. Sinto saudade das vezes que não andei sobre os ombros dele, das histórias que ele nunca me contou antes de dormir. Não me aconselhei com ele nas vezes em que tive medo de alguns desafios. Tampouco foi a ele que recorri quando tive minhas primeiras dúvidas amorosas. Engraçado que apesar de nada disso ter acontecido, às vezes paro e sinto como se tivessem ocorrido... e queria voltar no tempo e reviver essas sensações.

Ah, posso ser um jovem-velho saudosista. Mas e a viagem ao Japão? Na infância, queria conhecer o Jaspion e o Jiraya. Vovó me incentivava a escrever para a "Porta da Esperança". Dizia ela: "- O Silvio Santos atende a todos os pedidos. Você é esperto, ele vai gostar de você". Quantas vezes sonhei com a porta do programa dominical se abrindo e, de lá, ver surgir meus super-heróis...

Nunca fiz um gol de bicicleta. Não subi em árvores altas. Não pulei muro. Não matei passarinhos com estilingue. Não desci ladeiras em carrinhos de rolimã. Não "li" revista Playboy escondido. Não enchi a cara antes dos 18 anos para fazer meus pais sentirem vergonha. Não quebrei o braço nem uma vez sequer - e, por isso, nunca tive um gesso todo assinado pelos amigos, com aqueles desenhos engraçados.

Ah, eu não fiz tantas coisas... não rodei a Europa, jamais cruzei as fronteiras do Brasil. Nem às pescarias no Pantanal, programa tradicional que os primos faziam ao lado do meu tio Luiz, eu fui. E, querem saber? Talvez isso seja bom. Porque não tendo vivido o que tanta gente viveu, continuo me encantando toda vez que paro para ouvir alguém contar de suas aventuras. Continuo escrevendo histórias, para que alguém, daqui a alguns anos, possa sentir saudade da época em que eu vivo (e das coisas que eu já fiz).

domingo, 25 de dezembro de 2011

Colatina e eu

Me mudei para Colatina em 1995. Até então, morava no bairro de Laranjeiras, na Serra, num sobrado grande, com quintal, cachorro e jabuti. A família, entretanto, sempre esteve na "Princesinha do Norte". Naquele ano, eu e vovó Santa decidimos nos juntar à trupe. Havia muitas vantagens - entre elas, a proximidade de primos e tias, e a bolsa de estudos na Escola São José, que era da minha tia.

Foram dez anos na cidade. Foi em Colatina que dei meu primeiro beijo, que engordei na adolescência, que fiz muitos gols contra nas aulas de Educação Física (futebol nunca foi meu forte!), criei amizades infinitas e inimizades que até hoje me fazem arrepiar. Coisas e implicâncias que surgem na infância e que nos acompanham para sempre...

Foram incontáveis os domingos na casa da minha Dindinha Dica. Não havia alegria maior do que sentar no tapete vermelho que ficava na sala, após os almoços, e escolher uma "vítima". Falávamos de tudo e de todos. Principalmente de todos. Aliás, posso dizer que "falávamos" mesmo, porque apesar de criança, eu sempre bisbilhotei as conversas dos adultos. Enquanto isso, os primos aproveitavam a piscina e o quintal.

Minha infância teve primos queridos. Tinha o Luciano, que era minha "alma gêmea". Era o primo com quem eu brincava no fundo do quintal e no terraço. Ele, sempre querendo desbravar o mundo - certa vez, pulou do segundo andar da casa na piscina. Eu era a parte medrosa da dupla. Os domingos não seriam os mesmos sem ele.

Larissa era a "ídola". Enquanto eu era criança e ela adolescente, a lembrança mais saborosa que me vem à mente é a dos "Xous da Xuxa" que aconteciam no Natal. Larissa, óbvio, era a Xuxa. As outras primas - Bia, Polly, Nanda, Beta, Dani - eram paquitas. E nós, as crianças, participávamos das brincadeiras.

Na adolescência, estudei no Cefetes (hoje Ifes). Ali aprendi a ser gente. Apesar de já ter decidido fazer jornalismo, era obrigado a estudar Matemática, Química e Física. O-DI-A-VA essas matérias e nunca vi sentido em aprender trigonometria, roldanas, catetos, ácidos e acetatos. Que diferença isso faz na vida, gente????

Em Colatina cresci espiritualmente. Cheguei a ser coordenador de liturgia do Encontro de Adolescentes com Cristo (EAC) da Catedral. Perguntem-me quantas vezes fui à missa em 2011? Apenas uma. Ontem, aliás, véspera de Natal - na mesma igreja que, em 1998, fiz minha primeira comunhão.

Mudei-me de Colatina em 2005, para fazer faculdade em Vitória. Cabeça de adolescente recém-saído da fase das rebeldias, disse para mim mesmo: "- Chega desse lugar!". Prometi a mim mesmo que não voltaria à cidade, que merecia algo maior, mais evoluído. Acabei em Vitória, vejam só que ironia do destino...

Já são quase sete anos fora de Colatina. O que mudou em mim, não sei definir. Mas todas as vezes que venho aqui, me sinto em casa. Admiro a mesma praça municipal da qual tantas vezes desdenhei. Gosto de passar pelas ruas Expedicionário Abílio dos Santos e Cassiano Castelo, que continuam apinhadas de lojas, estreitas e com trânsito caótico. A ponte continua a mesma, as cheias do Rio Doce continuam assustando a população ribeirinha.

Toda vez que visito Colatina, agora como "forasteiro", reclamo do calor. Mas é aqui que me sinto em casa. Quando visito as primas, os primos. Quando vejo que as primas que um dia eram adolescentes agora já têm suas próprias filhas, que estão crescendo unidas e cheias de vida, protagonizando brigas e pazes como um dia desses era eu quem fazia.

Nasci em Belém (PA), mas devo admitir: se me perguntam de onde sou, falo sem pestanejar: sou de Colatina. E tenho o maior orgulho dessa cidade onde nada muda, onde o calor reina, e onde me sinto feliz por poder caminhar de olhos fechados, tenho a certeza de que não me perderei.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Um ano de novos desejos

Daqui a poucos dias, 2011 vira passado e começamos a viver um novo ano, que como todos os demais, começa em 1º de janeiro envolto num ar de renovação, de votos de felicidade, de um querer extremo "fazer diferente". É um período em que inspiramos amor ao próximo e solidariedade.

Comigo não foi diferente. Comecei este ano disposto a trabalhar menos, a não me cansar com problemas que não são meus. Em 1º de janeiro, me pus como prioridade: cuidar do corpo, correr no calçadão, voltar ao curso de inglês, ver mais a família. Veio fevereiro, março, abril... os meses foram passando e o corre-corre me fez esquecer alguns planos.

O curso de inglês eu comecei, é bem verdade. Fui a sete aulas. Não gostei do método, do professor, e simplesmente a coisa não vingou. Passei os 12 meses do ano lutando contra o peso. Bati nos 72kg e, só com muito esforço, consegui baixar o ponteiro da balança para 70kg. Nem um grama a menos. Mas, admito, basta uma fonte não atender o telefone, basta uma ansiedade qualquer, e me rendo às barras de chocolate.

Prometi ter controle financeiro. Tive. Em março, tive um lindo mês de férias, conheci parte do Nordeste brasileiro, revi amigos queridos e a parte da família que mora no Pará. Tudo ia bem e, para 2012, eu planejava comprar um carro. Não vai dar: mudei de apartamento, agora pago aluguel e precisarei ralar para assumir o apartamento próprio, comprado em 2010, mas que até aqui seria do meu irmão. Em 2012, nova mudança virá.

Em 1º de janeiro de 2011, vi o governador tomar posse e transmiti tudo ao vivo para a CBN Vitória. Encerraria ali meu ciclo de "dobra" entre a rádio e o jornal A GAZETA. Queria trabalhar menos horas, ter tempo pra mim. O plano não só não deu certo, quanto acabei deixando a emissora para abraçar de vez o impresso. Ponto pra mim, que estou realizado e vendo novas portas se abrindo.

Entrei o ano que está prestes a acabar pensando em encontrar alguém para a vida toda. Pensei em namoro sério, em "para sempre", em tolerar diferenças em função de grandes virtudes. Ainda não foi desta vez. Talvez não esteja mesmo na hora; ainda dá tempo de aproveitar a vida. "Pra sempre" é muito distante...

O ano está acabando. E, cheio dessa coisa de renovação, de sentimentos bons e pensamentos puros, quero encerrá-lo sem promessas. Sem prometer ser mais justo, mais tolerante, menos trabalhador. Também não vou me cobrar ser mais magro, mais simpático, menos ranzinza. Vou ser eu. E, em 2012, quero ter comigo quem me aceita assim. É um bom caminho.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Como fica o coração?

Cena improvável: diante da prisão de um adolescente, há pouco egresso de uma penitenciária do interior, o repórter dirige-se à mãe do rapaz e, meio sussurrando, pergunta: "- E como fica o coração de mãe?". Ela, olhos brilhando, responde: "- Bem melhor. Agora vou pra balada, vou colocar megahair e vou ser mais feliz!".

Sério, alguém consegue imaginar que isso possa acontecer? Ou que a resposta real seja pouco diferente de "- Destruído, sem forças, sem razão de existir"?. Eu não. E é por isso que, dia após dia, nesses quase três anos de jornalista formado, corro de perguntas clichês, feitas para arrancar lágrimas da fonte.

***

Em março de 2010, mamãe morreu. Recebi a notícia pela manhã, por telefone. Horas depois, eu já estava em Colatina, perto da família. E, lá pelas tantas, uma prima, daquelas que a gente não escolhe ter (e nem gosta) perguntou-me: "- E aí, Dudu, tudo bem?". Fugi da obviedade. Disparei: "- Ótimo, nunca estive tão feliz". Fui chamado de grosso.

***
Cá para nós: por que as pessoas, sejam elas jornalistas ou não, fazem perguntas tão cretinas? Não é possível conceber que alguma mãe, diante da filha morta, vá dizer que o coração está aliviado. Ou que uma esposa, ao ver o marido estirado no asfalto, atropelado por um caminhão, vá abraçar outro homem e, ali, dizer que está livre para viver um novo amor.

Já cobri essas situações. De velório a enterro (vários, pelos mais diversos motivos), passando por reconhecimento de corpo. Faltam-me palavras. As perguntas somem. Claro, "como fica o coração?" é a primeira tentação que vem à mente. Seguida de "como ficará a vida, a partir de agora?". Já são fórmulas prontas, infalíveis. Para TV e rádio, então, um gemido de dor, um suspiro dolorido no fim da frase conferem um "plus" ao material - há quem diga que humaniza. Acho o contrário.

Já me imaginei velando alguém que amo, e a última coisa que gostaria de fazer é falar, ter discernimento. A minha tristeza é silenciosa, o sofrimento é contido. Os entrevistados merecem - e devem - viver suas angústias sem importúnios. É por isso que em serviço só consigo dizer às famílias enlutadas "sinto muito", "que Deus te ajude" ou, no máximo, perguntar a alguém próximo, a um amigo, se há palavras para traduzir o que sentem.

Às dores humanas, o respeito. Ao coração, sossego. À consciência, após um dia de serviço, matérias pesadas e histórias relatadas, a tranquilidade. Jornalista não precisa ser açougueiro.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

O Natal já não é o mesmo

Passei novembro longe daqui porque precisei ficar mais atento a compromissos da vida real. Matérias especiais, retorno à academia, mudança. É, mudança. Depois de quase sete anos no mesmo apartamento, recentemente reformado e milimetricamente repensado por mim, vou ter que me mudar. Não por vontade, mas por outras questões que envolvem família, dinheiro e uma dose de compreensão. Ainda estou às voltas com isso.

A mudança é a parte mais chata, e afetou algo que eu sempre amei fazer: a decoração de Natal. Aliás, as vésperas natalinas sempre foram no meu imaginário a fase mais gostosa do ano, desde a infância. Pegar as caixas empoeiradas que aguardam por 11 meses sobre o guarda-roupa, rever bolinhas, enfeites, guirlandas e miniaturas de Papai Noel sempre reascendeu em mim um espírito de renovação. O Natal sempre teve, para mim, "cheiro", "gosto" e "tato". E eu sempre AMEI isso!

Este ano, entretanto, tudo mudou. As caixas continuam onde já estavam. Vejo as luzinhas nas janelas dos vizinhos e não me dá a mínima vontade de decorar a casa. Até mesmo a ida a Colatina, para rever a família e abraçar tias, primas e primos não me convenceu de ser necessária. Aquelas cores verde e vermelha, típicas da época, não mexeram comigo.

Será que estou ficando um velho rabugento, ou será que é assim mesmo? Sinceramente, tenho me questionado. Quando olho para trás, relembro os antigos Natais, na casa da minha dindinha Dica, em Colatina. Era Natais cheios de bombons Serenata, peru, Chester e Tender à mesa. Eu, como as outras crianças, correndo pelo terraço e forçando a barra para abrir os presentes.

Davam 23h30 e tia Vera - sempre ela - sentia dor de cabeça. Precisava ir em casa buscar um remédio. E lá ia ela, com o sempre escudeiro tio Dirceu. Meia hora depois, o que acontecia? Chegava o Papai Noel. E eu corria para abraçá-lo, e ganhava balas e sorrisos. Lembrar disso me faz arrepiar, como se revivesse aqueles abraços gostosos (mas o Papai Noel tinha cheiro de roupa guardada, por que será?!). Quando o Bom Velhinho ia embora, tia Vera chegava com tio Dirceu. E eu pensava "- Tadinha da tia Vera, perdeu o Papai Noel".

Os Natais da minha infância eram coloridos. Tinha CD tocando ao fundo, tinha "show de talentos" com as primas mais velhas, tinha banho de piscina à meia-noite. Este Natal vai ser diferente. Provavelmente em nova casa, com novos planos... e outros sentimentos. Ah, como era boa a época em que eu acreditava em Papai Noel e na bondade das pessoas...

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Meu espelho

Você já parou para pensar em quem é você hoje? No fim do expediente, quando as forças fraquejam, quando o cabelo está despenteado, quando um banho morno e um par de pantufas podem significar o maior dos desejos... quem é você? Quais seus valores, seus defeitos, suas virtudes? De onde você veio, e para onde está indo?

Eu posso ser um preguiçoso às 6 horas, quando o dia está raiando e muitos ainda dormem. Duas horas depois, sou alguém que admira os raios de sol, a beleza da grama molhada, as crianças que correm na rua porque estão atrasadas para a escola. Às 10 horas, quem sabe, sou um marombeiro ferrenho, que pedala veloz, que sua para perder as calorias acumuladas às custas de barras de chocolate e salgados fritos.

No início da tarde, quero ser forte. Quero ter pensamento ágil, perguntas feitas, histórias para contar. Ao fim do dia, sou um ser em busca de inspiração para preencher linhas e páginas com aquilo que pode mudar a rotina das pessoas. À noite, quem sou eu? Ah, não posso me esquecer, sou um resmungão de marca maior, que se queixa da dor de cabeça, dos telefonemas não atendidos, da lentidão das máquinas e do ônibus.

Quem sou? Às vezes não sei. Ou finjo não saber. Talvez esconda até de mim. Mas há dias em que sinto saudade de ser só aquela criança que comia bombons, escondido, na despensa da casa da madrinha, que brincava no quintal com bonecos de seriados japoneses, que, entre agulhadas e exames, sorria para as pessoas e podia rir e chorar sem medo do julgamento.

Ai, que saudade de mim. E você, que aqui chegou... quem é?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

E se houver sinais?

E se, de repente, eu me olhar no espelho e não for mais eu?
Se cair de moto
Se pular um muro
Se enfrentar as ondas
Se enxergar no escuro

E se, de repente, eu buscar palavras no meu íntimo silêncio?
E correr mais riscos
E assumir os quilos
E acordar cantando
E chorar baixinho

E se, de repente, eu me apaixonar?
Pelos livros
Pelos animais
Pelos acordes
Pelos números

E se, de repente, eu me cansar?
De fazer dieta
Das palavras certas
De pessoas instáveis
Da minha própria sombra

E se, de repente, eu não quiser mais chocolate
E se, de repente, eu não aceitar amarras
E se, de repente, eu desaparecer do mundo
E se, de repente, não for mais tão de repente...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tenho pena de Deus

Tenho pena de Deus. É, é isso mesmo. Me peguei pensando, há uns dias, em quantas vezes o desafiei a atender meus pedidos na hora em que eu queria. Perdi os cálculos. Desde pequeno, tive um pezinho na chantagem emocional, mesmo que fosse com o Todo-Poderoso. Então, do alto da minha pequenez, dizia: "- Se você existe mesmo, então me prova e me dá isso". Às vezes funcionava.

É, funcionava, e eu ria à toa quando alcançava meus pedidos autoritários, como se meu canal direto com Deus fosse algo como uma "linha vermelha", sem sinal de ocupado. Os pedidos variavam de "- Quero ganhar uma mochila nova" a "- Fala fulano sumir do meu caminho!". Ah, outro detalhe: a convivência em comunidade era um desafio para mim, até a adolescência.

Criado como um reizinho mandão, em que a casa girava ao meu redor e todos os pedidos eram satisfeitos pela família, acostumei-me às mordomias. Se queria um brinquedo novo, era só pedir. Nos inúmeros exames de sangue que fiz, a condição para aceitar as agulhadas era ganhar algo em troca. Certa vez, vovó pagou-me R$ 50 para que eu fosse ao laboratório. Tá, ela que usou para comprar algo, mas, lá no fundo, o ego falava mais alto. "- Consegui!".

De uns tempos para cá, parei de apostar com Deus. Perdeu o sentido a minha impáfia, de modo que, este ano, decidi que seria meu o que eu merecesse. Então, "- Se Deus quiser...", a vida caminha. E não é que tem caminhado? Mudei de emprego, tenho aprendido muito, financiei o apartamento para o meu irmão, ganhei um (sonhado) prêmio, tenho minha avó com saúde ao meu lado, fiz novos amigos... e nem chantageei os céus!

Dizem por aí que Ele escreve certo por linhas tortas. De certo modo, de escrever eu entendo (cof cof cof), mas às vezes custa-me entender a caligrafia divina. Pobre Deus, deve escrever tão rápido, que a letra sai pior que receita médica. E enquanto eu, pequeno, perco meu tempo indagando a veracidade das escrituras, Ele escreve depressa e enfrenta a tendinite (deve ter, né?!) para dar-me próximas linhas.

Espero que tarde meu ponto final.

Simples assim...

Tenho ensaiado a volta ao mundo das palavras que traduzem o que penso, mas confesso que não passam de duas linhas certas coisas que quero dizer. Talvez não por falta de vontade, mas por medo de permitir, de uma hora pra outra, que todos meus pensamentos aflorem. Tenho estado inconstante nas últimas semanas...

Uma coisa é certa, e até publiquei algo lá no meu Facebook: estou me dando conta de que já existem muitas complicações na vida para eu perder tempo tentando explicar os outros (e explicar-me aos outros). Já há tanta briga política escondida em corredores escuros do poder, tantos acordos sendo fechados por pura conveniência, incontáveis mentiras sendo ditas por aí com fantasia de verdade. Pra que ficar caçando dificuldade por aí?!

Tenho meus dias de nuvens cinzas, de mal-humor matinal, uma ranhetice com os quilos a mais que ganhei nos últimos meses. Guardo comigo algumas passagens desagradáveis, medos inconfessáveis, frustrações pessoais e profissionais. Mas são coisas que ficam trancadas no baú dos sentimentos e das lembranças. Não preciso enegrecer o mundo com o que não gosto ou com tudo aquilo que me angustia.

É melhor abrir a janela da alma para ver que o céu é azul, que os amigos são extensões do coração que decidimos plugar a nós mesmos, que o amor pode ser simples, corajoso e saboroso e, principalmente, que ao final do dia o cansaço não é impedimento para sorrir.

Levar uma vida mais leve é questão de escolha. De saber escolher onde estar, com quem estar, e por quanto tempo ficar. Então, decidi uma coisa: quero estar presente onde eu me sinta bem; onde haja desafios para enfrentar, ao lado de amigos nos quais eu possa confiar e, principalmente, perto do meu porto-seguro, nos braços de quem eu amo, para poder descansar. Simples assim.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Vale a pena sonhar

Há cinco anos, eu era um estudante universitário cheio de sonhos. Queria olhar nos olhos das pessoas e desvendar as histórias que escondiam. Desejava rodar o mundo, escrever sobre filmes, ir a boas peças de teatro. Não imaginava quanta estrada tinha à frente.

Em setembro de 2006, pisei pela primeira vez no Centro de Convenções de Vitória. Pela "TV Estácio", que na verdade nunca saiu do papel, fui cobrir o 12º Prêmio Capixaba de Jornalismo. Eu, de camisa social, cabelo cuidadosamente penteado, pernas trêmulas e perguntas decoradas. Queria falar com os vencedores daquela noite, saber o que pensavam, a que dedicavam suas vitórias.

Gabriela Rölke, hoje assessora do Procuradoria da República no Espírito Santo, havia sido a segunda colocada na categoria Jornalismo Impresso. A matéria, salvo engano, era sobre o mensalão capixaba. Pedi a entrevista. Ela negou. "- Não é por nada não, mas não gosto de dar entrevistas". Deu as costas e foi curtir a noite.

Entrevistei Suzana Tatagiba, que foi minha professora e é, até hoje, a presidente do Sindicato dos Jornalistas no Espírito Santo. Também falei com a Priscilla Contarini do Carmo, que havia vencido a categoria Radiojornalismo. Naquela época, eu detestava rádio. Pensava, cá com minha consciência, "- Alguém ainda ouve rádio? Que coisa ultrapassada". Ouvi também a Ilda Castro (foto), que até hoje comanda a festa de premiação com a sua Mile4. Entre um depoimento e outro, fechei a matéria.

Até hoje tenho esse DVD (ao fundo, entre os convidados, vejo gente que hoje trabalha comigo, como Geraldo Nascimento, Abdo Filho, Fábio Botacin). É nítido meu nervosismo ao falar, frente a frente, com jornalistas. Eu queria ser um deles. E naquela noite, lembro-me bem de ter prometido a mim mesmo, que em poucos anos subiria ao palco. E vou subir! Ontem, recebi a notícia mais importante da minha trajetória, até aqui: venci o Prêmio Capixaba de Jornalismo, na categoria... rádio!

O mundo dá voltas. Para quem começou a faculdade sem noção do que era uma rádio de notícias, vivi intensos dias de apuração pela CBN Vitória. Aprendi muito, e em julho deste ano, graças à denúncia de uma mãe de aluno, cheguei até a Escola Estadual Marcílio Dias, no município de Vila Velha.

Lá, a direção havia decidido reunir todos os alunos repetentes numa mesma turma. Ficaram todos conhecidos como "a sala dos reprovados". Foram três dias de apuração, de acordar de madrugada para chegar à escola, ouvir alunos, Ministério Público, Secretaria de Educação. Um trabalho minucioso, mas que, sem dúvidas, me encheu de orgulho.

Mesmo antes do prêmio, já havia valido a pena. A história ganhou repercussão nacional, a Secretaria de Educação interveio e desmembrou a turma. O jornalismo cumpriu sua função. Como sonhei um dia, pude olhar nos olhos daqueles alunos e contar as histórias que ali se passavam.

Vou à festa deste ano com intenções renovadas. Dever cumprido, um sonho alcançado. E ainda mais vontade de, agora no jornalísmo político, desvendar histórias, conchavos, entender os meandros das decisões que mudam a vida das pessoas. E, nas matérias em que não houver final feliz, lutar para que haja, no mínimo, um final digno e justo. É do que o mundo mais precisa.

sábado, 10 de setembro de 2011

Livrai-me do mal

Não adianta. Tem gente que, só de olhar, meu "santo" não bate. Posso tentar sorrir, vez ou outra dar assunto, puxar papo. Mas vai contra mim, é quase uma agressão. Acho que é coisa de anjo da guarda, ou algum sentido muito apurado; fato é que, de longe, consigo perceber gente interesseira, sem caráter e vendida.

Ah, os simpáticos da vizinhança... não me convencem! Começa assim: passa por você no corredor, encosta no ombro. No dia seguinte, encontra no ônibus e puxa um assunto sem pé nem cabeça. Em menos de uma semana, estão te curtindo no Facebook e, invariavelmente, sorriem e demonstram muita felicidade estando ao seu lado. Mas já experimentou surpreendê-los dois passos depois de se cruzarem por aí? O sorriso some. Simples, é falso.

Também não gosto de gente "que fala o que quer". Aqueles tipinhos que, doa a quem doer, são contra tudo e todos, que vociferam verdades próprias mas que, na hora do "pra valer", fogem da responsabilidade. São aqueles que não gostam de fulano, sicrano e beltrano, mas que: "- Ai, por favor, não vá dizer que eu disse isso. Não devo nada, mas não quero confusão". Se escondem nos bastidores da própria fraqueza e usam da língua ferina para agredir pessoas gratuitamente. Os ouvidos? Ah, estes estão sempre obstruídos ao que os outros digam.

Meu santo não bate com gente que fala alto ao celular, que abre as pernas para ocupar dois lugares no ônibus, que masca chiclete de boca aberta e que tem opinião sobre tudo, sobre todos, e força intimidade. Também não tenho paciência com quem diz, de manhã, uma coisa, e à noite age de outro modo. Coerência é charme, é pré-requisito ou, como diz uma amiga próxima, é "afrodisíaco".

Meu santo não bate com gente que acha bonito só falar de autores renomados; não acredito em pessoas que dizem não acompanhar reality shows e tampouco deposito confiança em quem provoca a discussão para, em seguida, dizer "não quero discutir". Não gosto de gente que vasculha os e-mails alheios, que usa de deslealdade em concorrência, que te elogia pela frente para, por trás, tentar puxar o tapete.

Sorte que tenho passos largos e no tapete não me embolo. Sorte que tenho amigos aos quais corro quando estou com dúvidas e medos. Sorte não ter a ingenuidade de outrora para crer que todo sorriso, de fato, é genuíno. Sorte que eu acredito em santos, e a eles recorro para livrar-me do mal.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Mamãe do Céu

"Bença Papai do Céu, bença Mamãe do Céu, bença meu anjinho da guarda". Foi assim que aprendi, ainda pequeno, a rezar. Eram as preces mais genuínas e simples que alguém poderia fazer, e ao buscar na memória consigo me lembrar com detalhes da cena: a cama nova, com cheiro de madeira, os brinquedos dispostos na prateleira, a luz amarela iluminando o quarto. E, ao meu lado, vovó. Sempre ela, me ensinando a juntar as mãos, fechar os olhos e "pedir a bênção".

O tempo foi passando e a infância de doenças e internações cada vez me aproximava mais daquele Papai do Céu de cabelos longos e olhos verdes que eu imaginava. Sempre simpatizei com ele, mas era Ela, a Mamãe do Céu, que me encantava. Com aquele manto azul, o semblante tranquilo e os braços abertos para onde eu podia correr - em orações e pensamentos - nas horas de sufoco. Às vezes, sabendo que havia feito algo "que Papai do Céu ia chorar", eu, criança, pedia baixinho a Ela que me ajudasse. Como criança que se esconde de um grande pito.

Mamãe do Céu sempre me valeu. Quando o dente-de-leite demorava a cair, quando a febre me acometia, quando os colegas de sala me perseguiam, quando as contas de matemática não entravam na minha cabeça. Por volta de uns sete, para oito anos de idade, minha tia Rita presenteou-me com uma Nossa Senhora Aparecida feita de um material que "iluminava" no escuro. Quantas vezes peguei no sono admirando aquela luz que se destacava na escuridão do quarto... sentia meu sono velado e dormia feliz.

No início da adolescência, surgiram as dúvidas. Será que Deus existe mesmo? Se existe, por que eu tenho essa vida? Por que Ele nunca me responde? Por que tanto mistério? Havia dias em que, com minha impáfia (um tanto genética), eu desafiava o Criador. "- Se você existe mesmo, então me ajude a tirar nota boa em matemática!". Chegou a tal ponto que, no 1º ano do Ensino Médio, escapei do zero porque a professora me deu 0,5 ponto por ter assinado a prova. Só a misericórdia divina para explicar...

Deixando de lado minhas implicâncias com Deus - e de vez em quando eu bato uns papos sérios com ele -, a Mamãe do Céu, diferente, sempre teve minha preferência. Seja Ela Maria, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Penha, ou até a Desatadora de Nós, que, coitada, deve ter os dedos calejados de tanto desamarrar os nós que eu mesmo arrumo.

Busco no manto mariano o conforto para as horas de dúvidas e o calor nas noites em que o frio atinge a alma. Fecho meus olhos e tento imaginar como serão os olhos dela, lá do céu, me vigiando. Ou, às vezes, me reprovando (porque toda mãe tem seus dias de piti, né?!). E, confesso, não são todas as noites em que rezo. Aliás, têm sido bem poucas. Mas quando o cansaço supera as forças, quando o vazio teima em vencer a fé, já sei a receita de cor: "bença Papai do Céu, bença Mamãe do Céu, bença meu anjinho da guarda".

Amém.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Receita de bolo

É preciso amar com tempo. Com tempo de parar, respirar, olhar no fundo dos olhos de alguém e para dentro de si mesmo. Deixar o relógio do amor platônico girar até cansar-se, ponderar além dos primeiros 30 dias encantamento, assistir aos dias de sol nublarem, a chuva cair torrencial e o solo secar após a enxurrada.

Amor não é momento, é constância. É perceber que além daquele perfume marcante há pele, e amar a pele com manchas, pintinhas, cicatrizes, rugas. É tocar a pele da pessoa amada sem o anseio de que ela sempre arda em paixão. É repousar as mãos sobre ela em alento às horas difíceis. Amar é secar as lagrimas que molham o rosto e beijá-lo com euforia quando o sorriso anunciar a boa-nova, a conquista sofrida e alcançada.

É preciso amar os defeitos sem deixar que eles se sobreponham às qualidades. Adorar um traço de estrabismo quando eles são parte do olhar que te ilumina a alma; venerar as mãos ásperas após um dia de trabalho na roça, se essas mãos (mesmo grosseiras) são as que te afagam com devoção; admirar orelhas de abano que te ouvem com paciência quando todo o resto do mundo parece surdo aos teus murmúrios de dor.

É preciso amar a falta de tempo e valorizar os segundos juntos. É, mesmo após anos, desejar "bom dia" sentindo do fundo do coração o desejo de que aquele dia seja especial para o seu amor. E se o seu dia for difícil, esperar o anoitecer para entregar-se em gestos e palavras, a quem abrirá os braços para acolher seu corpo, seus medos, suas raivas. Amar é ver que esse alguém - cheio de vícios e defeitos típicos da humanidade - pode vencer todos os fantasmas.

É preciso amar sem expectativa. É compreender que se nem nós mesmos nos entendemos, exigir que outra pessoa tenha 100% de compreensão sobre o que se passa em nossos pensamentos é, no mínimo, egoísmo.
Amar é respirar duas vezes antes de dar uma resposta; e na terceira, mesmo havendo dificuldade, ter a certeza de que "eu te amo" é a frase certa para sanar quaisquer problemas. É preciso amar com cautela. Mas sem tanto medo.

sábado, 3 de setembro de 2011

Os acordes da vida

Se a sua vida pudesse ter uma trilha sonora, qual seria? Qual é o ritmo que te embala ao amanhecer, nas horas de estresse, quando o coração acelera ou, simplesmente, quando você busca o silêncio em si próprio? Acabo de surpreender-me buscando essas respostas, e simplesmente não as possuo.

A vida é feita de muitas músicas, de acordes distoantes, de valsas lentas e baterias ensurdecedoras. De pronto, penso em Montserrat Caballè, que em 1988 emprestou a voz, junto a Freddie Mercury, à memorável "How can I go on?". A música marcou minha infância - esteve no LP "O melhor internacional de novelas" de 1992, um dos primeiros discos de vinil que lembro-me de ter pedido à mamãe. E eu passava horas e horas voltando a agulha do aparelho de som para ouvir aquela voz. Emocionava-me mesmo sem saber o que estavam cantando.

Na adolescência - não adianta mentir -, fui fã ardoroso de Sandy e Junior. Meu coração se partiu em pedaços quando um grande amor foi embora para longe, e a melosa "Turu Turu" parecia traduzir tudo que eu queria dizera. Só depois que ela se mudou para outro Estado que, por carta, admiti tudo que eu sentia e ocultava em amizade. O tempo passou, e com ele, o amor de juventude se transformou em uma das mais bonitas e fortes amizades que tenho até hoje!

Há bem pouco tempo - mais ou menos uns dois anos -, foi a vez de eu ouvir indiscriminadamente o jovem britânico David Archuleta. Mais uma vez, uma paixão, pensamentos disconexos, razão e emoção em conflito. As músicas que tocam nos meus pensamentos variam conforme a fase, conforme o que estou sentindo. Às vezes durmo com MPB e acordo querendo estar numa pista de dança. Estranho!

Na minha playlist recente, entram Adele, Isabela Taviani, Britney Spears, Train, Jorge Vercilo. Na trilha dos momentos em que busco paz cabe até mesmo a singela "Bella's Lullaby", que encontrei numa dessas aventuras pelo Youtube, à procura de sons simples para uma matéria complexa. Fato é que até quando estou em silêncio, recorro à memória das músicas para não me sentir vazio.

Bom, concluo, seria demais exigir que a vida tivesse uma única canção, uma coletânea pré-definida. Afinal, se nem mesmo nossos passos se definem logo que nascemos, porque um só som deveria nos tocar, nos arrebatar? Dia após dia, é bom deixar-se seduzir pelos sons, pelos acordes e vibrações. E, como diria Augusto Cury, "dançar a valsa da vida com as pernas desengessadas". Seja lá o que isso for!

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Eu voltei. Agora, espero, para ficar.

Tudo na vida tem um preço, isso é fato. Caminhar depressa pode dar calos nos pés, falar demais pode causar mal entendidos, dormir demais pode acarretar atrasos para o início do expediente. Nos últimos dois meses, experimentei, de tudo isso, um pouco. E devo acrescentar um item à lista: trabalhar muitas horas por dia, engorda. Mas também dá prazer!

Deixei o "Fachettoides" de lado em julho e agosto por absoluta falta de tempo. Mergulhei de cabeça no trabalho e conciliei a jornada da Rádio CBN Vitória com as horas extras no jornal A GAZETA, onde fiquei interino, por três meses, na editoria de Política. Duas realidades bem diferentes: a primeira, marcada por corrida, pautas factuais - muita explosão, manifestação, buraco de rua, operações policiais e fiscais. A segunda, mais serena no sentido do esforço físico, mas desgastante por exigir mais concentração, conteúdo, uma visão mais global de alianças, cenários e interesses.

Diante de tudo isso, faltava inspiração para vir aqui dividir com vocês, leitores, algo que fosse diferente daquilo com que convivia na Redação. Desde que abri esse espaço, me predispus a não falar de jornalismo. Seria redundante, cansativo, monótono. Não faz parte das minhas intenções como blogueiro requenguela.

Mas chega de bla-bla-bla: pretendo ficar mais tempo por aqui. Nos dois meses que se passaram, muita coisa mudou: deixei a Rádio CBN e agora sou repórter efetivo de Política. Optei por um novo caminho - que não foi fácil de ser escolhido - e com ele virão novos desafios. Muitas informações em on, em off, articulações, eleições e siglas... ah, quantas siglas! Que Deus me abençoe nessa nova rota.

Espero ter (ainda) meus leitores por aqui. E que venham reflexões, cenas da cidade, crônicas e desabafos para essa janela virtual. Enfim, estou de volta!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Rupturas

Não é fácil dar um passo adiante. Lá, quando tudo era infância, quando ao redor sobravam chupetas, quando as fraldas de pano roçavam entre as coxas, o caminhar era ajudado por um andador. Passos lentos, cambaleantes. Passos de menino em recente descoberta dos limites com olhos vidrados à frente e mãos agarradas a tudo.

Não é fácil seguir adiante quando a bicicleta passa a ter, de repente, apenas duas rodas. Sem a ajuda das rodinhas auxiliares, com o guidon meio frouxo, equilíbrio distante para quem visa quilometragens de aventuras infância afora. Mas basta um pouco de prática, joelhos ralados, queixo batido no asfalto, se aprende a girar os pedais em liberdade absoluta de movimentos.

Não é fácil deixar o Ensino Fundamental. Os colegas que cresceram juntos, as piadas bobas entre aulas de Ciências, Estudos Sociais, História e Artes. Ficam as marcas da tinta guache (e seu cheiro característico), as assinaturas em uniformes da infância, as corridas de pique-pega pelo pátio da escola. Laços construídos desde os primeiros anos de vida; a primeira namoradinha psicológica, as primeiras paixões platônicas, as brigas, cachorro-quente na cara, medalhas de honra por notas máximas no boletim. Isso também fica para trás.

Não é fácil crescer. Não no sentido dos centímetros ganhos com a juventude, não no sentido dos cabelos brancos que surgem com o passar dos anos. Há dificuldade em reconhecer o mundo - e querer que o mundo lhe reconheça. Há medos, lágrimas, angústias. O mundo, do dia pra noite, troca a tinta guache e a aquarela da pré-escola pelas contas de cartão de crédito, pelos dedos em riste exigindo respostas (nem sempre na ponta da língua).

Não é fácil tomar decisões. Ser um caranguejo que, por natureza, se apega ao que passou, mas que luta contra a própria natureza para seguir adiante, evitando os buracos escavados na areia por outros nem sempre tão bem intencionados. Não é fácil separar o coração da razão, o fato do boato, a oportunidade do novo e o confortável conhecido. Não é fácil dizer adeus.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Quando decidi ser jornalista

Há cerca de três meses, quando comecei a postar neste blog, prometi a mim mesmo que, por aqui, eu "daria um tempo" do jornalismo. Me propus a escrever sobre mim, sobre o que penso, sobre observações e reticências do mundo. Mas hoje resolvi quebrar a rotina - aliás, cada dia mais corrida! - para dividir com vocês o dia em que decidi ser jornalista. E lá se vão uns 11 ou 12 anos, se bem me lembro.

Para começar, vou dizendo logo: a culpada é a Glória Maria! Sim, confesso. A mesma que é apontada, nas faculdades (pelo menos, na minha era) como o pior exemplo de jornalismo do país. Estávamos em meados de 2000, e até então, eu já havia pensado de tudo um pouco sobre o futuro. Ator de novelas, autor de novelas, professor de Língua Portuguesa... até mesmo psicólogo pensei em ser, mas nunca tive paciência para estudar a função das mitocôndrias, etc etc etc.

Pois bem... eis que surge, na TV, uma matéria sobre vulcões. Não me lembro onde, nem o porquê da pauta, mas lá estava Glória Maria, agachada sobre um rio de lava, "futucando" o magma fervente com um pedaço de madeira. Pronto! Meus olhos brilharam, meu coração acelerou e, num ímpeto, pensei: "É isso que quero fazer o resto da minha vida!". Não, eu não queria ver vulcões, muito menos tomar 110 cápsulas rejuvenescedoras por dia. Quis - e continuo querendo - a loucura de viajar, de conhecer o que parece distante, de "futucar" coisas que nenhuma outra profissão me permitiria.

Decidi ser jornalista aos 15 anos, portanto. E passei a adolescência toda dizendo isso aos professores de Química, Física e Matemática. Nunca fui, e continuo não sendo bom em cálculos. As exatas me parecem tão frias, distantes. A família dos gases nobres, a tração das roldanas, os catetos e hipotenusas nunca fizeram sentido pra mim. No entanto, as letras sempre me fascinaram. O som das palavras, a construção de uma frase de impacto. Muitas delas escrevi a mão, e estão guardadas em pastas sobre meu guarda-roupas. Talvez um dia eu as publique.

O jornalismo me trouxe a Vitória. Me tirou de Colatina (hoje sinto saudades da família, acho que deveria ter curtido mais) e me ensinou que tudo, absolutamente tudo, tem dois lados. Às vezes três. Até quatro. Abriu meu olhar para um horizonte infinito. Me trouxe rostos, relatos, histórias de vida (e de morte) que nenhuma ciência exata, se delas eu gostasse, me traria. O jornalismo me permite acordar todos os dias querendo fazer da minha vida uma nova história, porque sei que, adiante, vou ter que lidar com o desconhecido.

No início, divido hoje com vocês, eu não sabia a diferença de Polícia Rodoviária Federal (PRF), Polícia Rodoviária Estadual (PRE) ou Guarda de Trânsito. Fábio Botacin, hoje um grande amigo, fez um mapinha primário e me ditou a regra: a primeira fala de rodovias federais, a segunda de estradas estaduais, e a última, das ruas da cidade. Primeiro e inesquecível aprendizado.

Não me lembro, ao certo, meu primeiro flash ao vivo na rádio. Estava no ar o CBN Cotidiano, ainda apresentado por Hemerson Costa (em 2007), quando uma tempestade derrubou a rodoviária de João Neiva. Um ouvinte ligou apavorado e eu - ainda estagiário - atendi o telefone. Em menos de dez minutos eu estava no ar, relatando aos ouvintes as primeiras informações. Nunca me esquecerei daquele dia, porque foi quando eu aprendi que ser jornalista é muito mais que escrever bem. É saber ouvir a rádio ao vivo, prestar atenção na TV ligada e manter a concentração para fazer entrevistas por telefone. Ao mesmo tempo!

Tenho várias histórias para contar... parando para pensar, vejo que muita coisa já aconteceu. Já entrevistei gente desabrigada, gente da alta sociedade, padres, pastores, pais-de-santo. Ouvi palestras intermináveis, corri atrás (literalmente) da notícia quando ônibus eram incendiados, me vi no meio de protestos com pneus queimados, falei com governadores e manifestantes. Já ouvi insultos na rua, mas também já recebi e-mails de ouvintes que, ajudados por uma simples informação, conseguiram algo bom.

Não me arrependo da minha escolha precoce. Ainda não fiz uma viagem internacional, não passei sequer perto do magma, mas aprendi a "futucar" histórias e a não me calar diante de respostas mal dadas. Sinto um friozinho na barriga quando a pauta inspira mais cuidado, e desando a falar quando me pedem mais fôlego ao vivo. Ainda tenho muita estrada pela frente, é bem verdade. Mas o importante é que o primeiro passo foi dado. Um dia eu chego aos vulcões!
ººº
Caros leitores,

O "Fachettoides" está com escassas atualizações por causa deste vício chamado JOR-NA-LIS-MO. Tenho passado, em média, 14 horas por dia na redação. Pela manhã, vocês podem me acompanhar na CBN Vitória (93,5 FM) ou no www.gazetaonline.com.br/cbn. À tarde, até o fim de julho, estou na equipe de Política do jornal A GAZETA. Desculpem-me a ausência, e espero tê-los aqui comigo quando as atualizações voltarem à regularidade.

sábado, 25 de junho de 2011

Marcas de frenagem

Um passo adiante, e todo um caminho pode se tornar inviável. Sabe quando estamos numa estrada, não percebemos as placas e acabamos perdendo a via de retorno? Na vida também é assim. Corremos tanto, todos os dias, que às vezes ignoramos os sinais postos no caminho nos indicando a hora de parar, de acelerar, de ter atenção com as oscilações e curvas sinuosas.

Como se fôssemos carros (acho que vale a comparação), temos que ter parabrisas bem ajustados, para que a visão seja clara o suficiente adiante, e retrovisores na posição correta, para olhar para trás e ver por onde passamos, quem deixamos e, principalmente, quem está chegando mais perto, vindo ao nosso encontro. Afinal, não somos só nós quem estamos indo adiante, nessa loucura chamada tempo. Lá atrás também tem gente querendo chegar junto!

A estrada, em geral, não é fácil. Há barreiras difíceis de serem superadas, estradas pedregosas, pistas escorregadias. Em dias de céu astral nublado, verdadeiras tempestades de emoções por vezes nos atrapalham a seguir de cabeça erguida. Nesses casos, pelo que vejo, poucos são os que admitem uma paradinha "no acostamento" para esperar o tempo clarear. Vivemos nos cobrando velocidade, agilidade. Sinal vermelho: acabamos nos atropelando!

Custamos a trocar nossos pneus - leia-se sentimentos, raciocínios, maturidade emocional. Insistimos em seguir viagem desgastados, cansados após um dia inteiro de trabalho ou de uma grande crise pessoal. Queremos fazer as curvas em alta velocidade quando mal acabamos de sair das pistas de alta velocidade. Há, hoje em dia, uma eterna busca pela "próxima emoção". A próxima boca a ser beijada, o próximo desafio profissional, troféu seguinte a ser conquistados. Vamos para essas batalhas desalinhados - de corpo e alma!

ººº
Por quê tantas metáforas?, vocês hão de me questionar. Porque, meus caros leitores (e amigos), após muita quilometragem rodada acima dos 100km/h, tirei o feriado de Corpus Christ para fazer meu pit stop. Cercado da família, em Colatina, com crianças que eu amo, primas que trazem experiências e novos olhares, gente que me faz bem e me olha nos olhos.

Resolvi avaliar meu balanceamento, ajeitar meus retrovisores do espírito, os parabrisas da visão e, principalmente, dar uma arrumadinha nos pensamentos. Me desfiz do que parecia fora do lugar e ajustei, na alma e no coração, as peças novas que já vinha adicionando à velha lataria. Pronto, depois do feriado, posso voltar para a autoestrada e rodar mais um pouco. Com um pé no acelerador, e outro no freio.

Alguém quer uma carona?

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Naninha faz falta

Ela deixou marcas tão fortes em mim, que talvez nem em 90 anos eu consiga apagá-las. Das mais simples, como o franzir da testa, às mais complexas, como a inexplicável sensação de estar sempre buscando o que está distante. Deixou-me um legado de lutas, vitórias, de dores e prazeres que, dia após dia, me fizeram ser quem sou hoje.

Falo, mais uma vez, da minha mãe. Mas hoje sinto uma coisa diferente, e não quero falar dela como minha mãe. Quero falar da Eliana pessoa, da "Naninha" da família. Cheia de ataques, de nuances, de mistérios. Dona de uma gargalhada rasgada e de um silêncio ensurdecedor - dois antônimos que a tornavam figura ímpar em meio à multidão.

Naninha era dessas pessoas pouco comuns. A ela, não bastava o óbvio, o simples. Tudo tinha motivo, e muitos desses motivos provavelmente nunca existiram. Ela os criava. Vinham de sua mentalidade ligeira as brigas homéricas que travava com os outros (e consigo própria). Batalhas inglórias, por tantas vezes sem um rival aparente. A vida virava um front, e nele, com unhas e dentes, ela se dedicava.

Com a Naninha, aprendi que cantar liberta aquele nó na garganta que fica após um sapo ser engolido. A música espanta a solidão, mas também aproxima sentimentos nem sempre gostosos. Explico: quem não sente a angústia de Fafá de Belém em "A volta", numa canção que narra - com Roberto Carlos - as desventuras de um amor bandido e mal revolvido? E a voz de Luís Miguel, em "La Barca", com seu casteliano arrastado, que põe o ouvinte em transe, num navio de partida? Melodias que embalaram minha infância.

A profunda vontade de acreditar que "tudo vai dar certo" veio dela. E sei, hoje, que ela nunca acreditou que esse certo realmente existiria. Vinha de dentro do coração dela essa eterna contradição, esse buscar-luz-no-fim-do-túnel mesmo - veja só! - quando não havia túnel algum a ser percorrido. Naninha nunca suportou o que era fácil demais.

Naninha não suportava a mediocridade. Condenada a bondade em demasia. Dizia rasgado o que pensava, mesmo sabendo que aquilo poderia lhe custar alguns dias de discussões com gente querida. Naninha sabia bradar aos quatro ventos sua alegria e, quando lhe parecia interessante, sabia se apresentar como a pessoa singular e extraordinária que era. Mas isso, sempre sob a luz da simplicidade.

Por fim, a busca pela iluminação. Os livros de Osho, a meditação. Alguns versículos bíblicos, mas não muitos. Nem mesmo o catolicismo ou o excesso de religiosidade lhe pareciam coisas boas. Naninha era ela mesma, e pronto. Quando havia alegria, era o próprio carnaval encarnado. Quando em sua alma surgia alguma nuvem cinza, era melhor que o mundo se preparasse, porque ela sabia fazer uma grande tempestade.

Entre altos e baixos, risos e lágrimas, declarações de amor e ódio, pude ser testemunha, por 24 anos e nove meses, de todas as facetas que um ser humano - de carne e osso, razão e emoção - sabe ser. É... eu vim desse turbilhão de emoções, e talvez isso sirva para que, daqui a alguns anos, eu possa me entender (e, quem sabe, me fazer entender). É... Naninha faz falta.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Cães famintos

Um cachorro lambia o asfalto, no meio da rua, numa manhã fria de outono. O vento era gelado, às vezes assoviava, e o pouco movimento denunciava que a vizinhança dormia. Um carro veio veloz - era um Chevette, ou um Monza; tanto faz - e, mesmo com o rupido rouco da buzina, o cão não se moveu. Manteve a avidez da língua sobre o asfalto, sorvendo restos de algum líquido leitoso derramado ali. Tinha fome. Quem sabe, frio.

Aquele pobre vira-latas muito provavelmente não tem nome, não tem dono, não tem vez. Um pote de ração lhe serviria como banquete. Água, só conhecia das poças à beira do caminho, após as chuvas torrenciais que inundavam a ilha vez ou outra. Lhe fora negado, desde a ninhada, o direito a ter irmãos, afinal, deles nem se lembrava.

Um cachorro. O asfalto. Sede e fome onde só há concreto, vento frio e transeuntes que não o veem. Este pobre canino pode ser eu. Pode ser centenas de Joões, Joanas, Mários e Marianas que estão por aí, perambulando pela cidade, com fome e sede. Fome de comida, fome de amor. Sede de atenção, de cuidado, do mínimo de dignidade.

Cachorros, aos montes, nas ruas. Sem coleiras, sem casinha para dormir. A eles, somente restos do que ficou na estrada, mesmo que não tenha sabor. Um fio de esperança, lambidas sobre o que um dia pode ter sido saboroso. Pessoas e cães ensurdecidos pelas roucas buzinas nas avenidas e pelos gritos impiedosos de quem está sempre com pressa para o trabalho, sem tempo de olhar quem está ao lado. Mesmo que seja apenas um animal.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Rapidinhas

Três pessoas entram no ônibus. Duas são bonitas; uma, horrível. Adivinha quem senta ao seu lado?!

A viagem dos seus sonhos (ou aquela roupa que você deseja) entra em promoção. Seu cartão de crédito está bloqueado.

Você malha um ano para impressionar sua ex-namorada com sua boa forma e disposição. Ela se casa com um gordo.

Sua mãe comunica à família que, anos após ficar viúva, arranjou um namorado. Ele tem 30 anos, ela, 69. Pior: ele te pegou na balada na noite anterior.

A depilação não está em dia e a langerie está folgada. Ele chega de surpresa, cheio de amor para dar.

Você resolveu cortar o cabelo. No meio do salão, a biba anuncia: "- Nossa, você está ficando careca, hein?!".

Depois de muita promessa para Santo Antônio, você se cansa de esperar o milagre dos céus e resolve fazer um despacho forte na encruzilhada. A pessoa amada passa na garupa da moto do seu melho amigo bem na hora que você ia acender a vela preta.

Num dia de solidão e carência, você decide contratar "Natasha, gata safada, 18 aninhos, faz td". Quando a campainha toca, surpresa: é sua irmã.

O dia amanhece ensolarado, você põe aquela roupinha de praia e segue para o mar. Cai uma tempestade e venta forte. Só lhe resta virar oferenda.


Não desista. Podia ser pior!

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Um curta para longas conversas

Há alguns dias venho buscando alguma coisa para dividir aqui com vocês. Pensei em escrever sobre a escolha entre dois caminhos, ou, quem sabe, refletir um pouco sobre a correria do dia a dia. Isso, aliás, não chega a ser nenhuma novidade para mim - que até o fim de junho, devo passar às vezes até 12 ou 13 horas no serviço. Mas nem um tema, nem outro. Resolvi escrever sobre aqueles dias em que não nos enxergamos e recorremos aos olhos dos outros para ver o mundo.

A ideia surgiu ontem, quando recebi o link para o curta-metragem "Eu não quero voltar sozinho", de Daniel Ribeiro. É pequeno - pouco mais que 17 minutos -, mas traz uma mensagem bonita; a história de três adolescentes que estudam juntos. Um deles, cego, precisa da ajuda da melhor amiga para se encontrar no mundo. Ela, uma garota tímida, parece ver no amigo uma espécie de âncora para as próprias inseguranças. E eis que surge um terceiro elemento, um aluno novato, que soma à dupla um viés diferente... a descoberta do amor.

Seria mais uma história de amor, de tantas outras que já vi no cinema e em novelas, se o curta não abordasse, com uma singeleza singular, a descoberta de sentimentos entre dois garotos. E antes que alguém aí do outro lado se sinta ofendido ou ache que estou aqui fazendo alguma apologia, explico. Não vi nessa história a beleza por se tratar de um amor entre iguais. Aliás, passo longe da polêmica. Mas gosto de histórias bem contadas, de ser espectador de tramas factíveis, dessas que a gente vê por aí - entre meninos, meninas, velhinhos. Histórias de amor!

Me emociona a indagação de Leonardo, o menino cego da trama em questão, à colega. "- Eu sou bonito? Você acha que as pessoas me consideram uma pessoa bonita?". Quantas vezes já me fiz essa pergunta. E quantas vezes, posso apostar, pelo menos um de vocês, que passam por aqui, também já não se indagaram de igual forma? Em comum, temos algo: nós nos enxergamos. Nos vemos nos espelhos, nos reflexos de vidros escuros. Leonardo não. E mesmo nos enxergando, nos conhecendo (e reconhecendo) em cor, altura, textura, tantas vezes não nos vemos como somos. Ou achamos que são os outros que não nos veem.

"Eu não quero voltar sozinho" é, mais que um curta-metragem sobre dois meninos e uma menina, um retrato da cegueira da gente. Dos momentos em que surge a paranoia, em que buscamos braços que nos guiem e, no vazio, perdemos a noção do espaço. Um bonito relato sobre a importância da amizade. Sobre como ganhar a confiança de alguém sem pedi-la. Uma paráfrase de gente de verdade, com "pele branquinha, cabelo todo enroladinho, olhão". Ou, talvez, de pessoas sem nenhum desses predicados, mas um coração disposto a sentir e receber carinho.

No fim das contas, ninguém quer, mesmo, voltar sozinho para casa.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Tragam a camisa de força!

Bipolaridade é a palavra do momento. Como um bálsamo para as dores da alma, ela tira pesos dos ombros pecadores e os coloca no patamar de sofredores - pobres vítimas do destino. Ultimamente, noto que essa paroxítona vem sendo lançada como tapume para os mais diversos problemas estruturais dos homens; cabe do mau humor matinal aos ímpetos de agressividade.

Acordo num dia de sol, brisa leve, pássaros nas nuvens. Humor nas alturas, bom dia desejado aos porteiros, zeladores e até aos cães nas ruas. Em questão de minutos, um carro passa sobre uma poça, suja minha calça. Zango. "- Bipolar!", apontam os demais. Não há outro diagnóstico - nem mesmo um destempero pontual.

Ficou fácil esconder os próprios defeitos usando a bipolaridade como desculpa. Um dia de introspecção, se seguido de euforia por uma boa notícia que chegou de repente, pode denotar distúrbio de comportamento. Do contrário, se a luz dos olhos se apagam por algum motivo breve, sempre haverá quem, sem a menor proximidade, cochiche para um terceiro sobre "as duas caras de fulano".

Ficou tão fácil taxar os outros de bipolares, que às vezes me acho bipolar por pensar demais. Ser normal, hoje em dia, é manter uma só linha de raciocínio. É sorrir do amanhecer ao anoitecer, mesmo guardando mágoas e tristezas no fundo da alma. Não se pode mais ter algumas horas de silêncio, muito menos dar-se o luxo de uma autoavaliação que exija distância de outras pessoas, para pensar e respirar melhor. Quem faz isso... ah, é bipolar!

Estamos fadados a uma alegria contagiante, excessivamente expressiva. Picos de raiva, rompantes de insatisfação, de "desabafar consigo próprio" devem ser polidos, controlados ao máximo. Os "normais" são céticos, secos, austeros. São lineares e desconhecem a aplicação da expressão "ou 8, ou 80". Quero fazer parte desse grupo? Não. Prefiro minha naturalidade e a livre expressão que me aproxima das camisas de força.

domingo, 5 de junho de 2011

Belém, belém...

Tempos estranhos esses de internet para todos os lados. Não sei em que parte do filme da vida eu dormi, mas de repente estamos, todos nós, reféns dessa tal de banda larga. Esqueceu-se a época dos telegramas, das cartas endereçadas, dos envios via Correios. Ficou para trás aquele friozinho na barriga que levava duas, três semanas, até que a resposta a uma carta de amor chegasse.

Evoluímos ou retrocedemos? Não sei essa resposta. Sou de uma época - não muito remota - em que os melhores amigos estavam por perto. Nos telefonávamos todos os dias, às vezes até mesmo sem assunto. Fato era que a linha telefônica era o meio que encurtava as distâncias, mesmo quando as tarifas eram exorbitantes. Depois veio a internet discada, o ICQ, o mIRC. Velhos tempos.

Aliás, ICQ ainda existe? mIRC acho que não mais. Aos mais novos, explico: eram sistemas rudimentares, mas que tinham o mesmo princípio das salas de chat (também empoeiradas na era do imediatismo) e do Messenger. Só que, ao invés de fotos, trocávamos números. Às vezes falávamos com pessoas de longe, que nem conhecíamos, por meses. E tudo isso, sem conhecer o rosto de quem estava do outro lado da tela, porque também não havia scanner ou câmeras digitais. A imaginação era o elo entre a realidade e a fantasia que criávamos.

Hoje essa fantasia, esse "criar o ser ideal" já não existe. A troca de afinidades e de imagens é instantânea. Se não agradou, um "block" resolve tudo. E que venha o próximo perfil! Estamos conectados, querendo ou não, 24 horas por dia. Não bastava o MSN, o Twitter, o Facebook e tantas outras redes, veio também o 3G, a banda larga mobile. Hoje, você não faz mais amigos. Você adiciona. Os laços não se criam pela convivência, pelas afinidades dia após dia, e sim pelos "amigos em comum" e pelas aparências - nem sempre fiéis - que se põe nos perfis on-line.

Nesse contexto cibernético, cheio de abreviações e caracteres que traduzem sentimentos e feições, até mesmo o antigo "ficar de mal" mudou. Quando eu era criança e brigava com algum coleguinha, era comum dizermos: "- Belém, belém, nunca mais eu 'tô' de bem". E assim era dada a pausa na amizade. Por dois, três dias. Não durava mais que isso, em geral. Chegava a ser engraçado, confesso.

Hoje a história é outra. Se fulano diz coisas com as quais não concordo, "block" nele. Me irritou com muitas mensagens repetidas? Deixo de seguir. Se a amizade não está mais tão interessante, basta "parecer invisível" para não dar motivos para o outro puxar assunto. Tudo se resume a ações frias, automáticas. Um clique e fim de papo.

Acho que estou envelhecendo. Então, antes que pareça um ser apocalíptico, daquele que deseja o retorno dos mimeógrafos, do papel almaço e dos telegramas fonados, como se o passado fosse mais saboroso do que é o hoje, é melhor ficar offline. T+, blz?

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Risco de queimadura

Começa com um calor no peito, um brilho diferente nos olhos, um pensamento que teima em ser pensado. Vem o suor nas mãos, uma vaidade súbita, aquele frio na barriga esperando sinais de fumaça - às vezes, torpedos, e-mails, um "cutuque" no Facebook. Pimba, é paixão!

Existindo desde que o mundo é mundo, essa tal de paixão é capaz de nos cegar. Seja quando nos apaixonamos por alguém, seja quando o encantamento se dá por um ideal. Os sintomas se repetem e, tomados de forte arroubo, defendemos o objeto idolatrado desmedidamente. Cegueira traiçoeira, nos venda os olhos com um trapo que só nos deixa um facho de luz. Justamente aquela luz quente, que aquece o coração.

Os apaixonados, ah, os apaixonados... não admitem críticas a qualquer coisa que esteja próxima de seu altar. Fagulhas incendeiam campos outrora tranquilos, pecadores se transformam em santos inveterados. Não os culpem, eles não conseguem avaliar a dimensão de seus atos. Tomados de sentimento, é como se o corpo se prolongasse para além dos limites, como se o outro - o ser amado - fosse também um pedaço seu. Conhecem e admitem, tão somente, o que sentem - o que os conquista, encanta e transforma.

Pelos caminhos tortos da vida, já conheci muitos tipos de apaixonados. Há aqueles que ouvem músicas e sentem os versos como se fossem escritos para si, que ficam aflitos à espera de um telefonema, que capricham no perfume e ficam indecisos com a roupa para "aquele" encontro. Também já vi paixões devastadoras - que estragam amizades, que rompem os limites do respeito, do diálogo, da tolerância. Em comum, a veneração desmedida, o não ver (e não querer ver) fissuras em tetos de vidro.

Paixão é coisa boa, não dá pra viver sem. Mas como a cólera, é precisa ser freada. Por mais difícil que seja, requer rédeas e freios. Pulso firme e racionalidade. Como fogo em pneus, ela atinge ápices, queima, deixa rastro que dá pra ver de longe. Mas é inevitável: passado algum tempo, a paixão vai enfraquecendo, a fumaça rareando, e ela cessa. Em seu lugar, ficam as cinzas.